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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Enquanto prega austeridade fora, Merkel aumenta os gastos na Alemanha

Angela Merkel

Há uma razão para que os gregos e outros cidadãos dos combalidos países da zona euro estejam furiosos com a Alemanha. Berlim, no final das contas, assumiu de modo entusiasmado o papel de professora, e não tem se esquivado de aplicar os devidos castigos quando acredita que os países endividados não estão fazendo o suficiente para implementar programas de austeridade.

Em casa, no entanto, o governo da chanceler Angela Merkel, de centro-direita, vem demonstrando um fervor um pouco menor para a frugalidade, especialmente agora que as eleições gerais na Alemanha encontram-se a menos de um ano de distância. E, esta semana, os líderes dos três partidos políticos representados na coalizão de Merkel se reuniram em Berlim para solucionar vários pontos de conflito. O resultado? Uma conta potencialmente alta para os contribuintes.

Merkel, Philipp Rösler, chefe da menor agremiação da coalizão, o Partido Democrata Liberal (FDP), e Horst Seehofer, que lidera a União Social Cristã (CSU) da Baviera, partido-irmão do conservador União Democrata-Cristã (CDU), de Merkel, concordaram em aumentar as pensões dos idosos ameaçados pela pobreza – que, apesar de sua situação, contribuíram para a previdência social durante quatro décadas. Os três líderes também concordaram em seguir adiante com uma proposta controversa, que ajudará donas-de-casa que são mães a receber 100 euros por mês. Eles também decidiram conceder trimestralmente um pagamento adicional de 10 euros para consultas médicas e aumentar o orçamento do ministro dos Transportes em 750 milhões de euros.

A falta de detalhes, principalmente em relação ao novo plano de pensão para os idosos, faz com que seja difícil determinar exatamente quanto esses novos programas vão custar – mas, provavelmente, os gastos ficarão na casa dos bilhões de euros. Ainda assim, na noite de domingo, o governo de Angela Merkel também prometeu apresentar, até 2014, um orçamento estruturalmente equilibrado conforme o planejado, o que significa que Berlim pretende reduzir as novas tomadas de empréstimos dos atuais 13,1 bilhões de euros já programados para apenas 6,8 bilhões de euros. Ainda não está claro de onde exatamente virão essas economias adicionais. A fim de cumprir essa promessa, entre 6 bilhões e 7 bilhões de euros em despesas programadas terão que ser cortados.

“Um pouco de incerteza”
O ministro da Fazenda alemão, Wolfgang Schäuble, que atualmente está participando da reunião de cúpula do G-20 na Cidade do México, disse que ainda não está completamente claro se o objetivo de alcançar um orçamento estruturalmente equilibrado – que pressupõe uma produção econômica constante e, dessa forma, exclui variações na receita fiscal provocadas por um crescimento inesperadamente fraco (ou forte) – será possível até 2014. “Ainda há um pouco de incerteza”, disse Schäuble.

Várias das questões decididas pela coalizão de Merkel nas primeiras horas da manhã de segunda-feira passada vinham pesando há muito tempo sobre sua aliança com os outros partidos – e aprofundavam a impressão já amplamente difundida na Alemanha de que a chanceler e seu ministro da Fazenda, apesar de todo o respeito atribuído a eles, estão cercados pela mediocridade. O auxílio concedido às donas-de-casa que são mães, em especial, foi propagandeado por políticos de direita e de esquerda como o apoio estatal a uma visão antiquada da vida em família. Mas a proposta foi fortemente defendida no parlamento pela CSU, e Merkel, por fim, não teve muita escolha a não ser aceitar a medida.

Cancelar os 10 euros que os pacientes têm que pagar trimestralmente por consultas médicas também é uma medida controversa. O auxílio foi originalmente introduzido em 2004, como forma de fortalecer o sistema alemão de seguro público de saúde e para dissuadir os pacientes de fazer visitas desnecessárias ao médico. Mas o FDP, que apoia o setor empresarial, insistiu na abolição desse auxílio.

As críticas da oposição alemã foram duras na segunda-feira e terça-feira passadas. Carsten Schneider, especialista em orçamento dos social-democratas no parlamento, disse ao diário alemão Süddeutsche Zeitung que “no momento em que o senhor Schäuble está na reunião de cúpula do G-20 para dar lições ao mundo sobre a frugalidade orçamentária, sua própria coalizão está empurrando os problemas da Alemanha para o futuro”. Outros líderes da oposição foram igualmente críticos. E as administradoras de planos de saúde da Alemanha emitiram uma declaração afirmando que o corte do pagamento extra fará com que suas reservas significativas “derretam como neve sob o sol”.

Analistas alemães também lançaram um olhar mais atento sobre os acordos firmados pela coalizão de Merkel na noite de domingo.

O diário de negócios Handesblatt escreveu:

“É claro que até mesmo o governo de coalizão não acredita verdadeiramente no poder dos seus acordos para reorganizar as finanças. Seu objetivo de equilibrar o orçamento em 2014 depende de “circunstâncias econômicas e europeias estáveis”. Simplificando: ‘Se as coisas vão mal, nós apenas as adiamos. E quanto ao que ocorrerá após 2014, vamos ver o que acontecerá durante as eleições’. Na metas mais ambiciosas – como a redução dos subsídios estatais – o governo nem sequer se atreve a tocar”.

O diário conservador Die Welt escreveu:

“A coalizão de Merkel venceu a eleição de 2009 com a força de promessas de uma reforma ampla. Mas, em poucas semanas, a administração já havia se reduzido, aos olhos do público, a um governo mesquinho consumido por um debate sobre qual deveria ser a tributação para os cafés da manhã oferecidos por hotéis. E tem sido assim, em grande parte, que as coisas permaneceram desde então. As grandes decisões tomadas por este governo – relacionadas à Europa, à Grécia e à política para o setor de energia – tendem a não estar ligadas, nas mentes dos eleitores, à coalizão, mas sim à chanceler Merkel. Apesar de muitas das decisões de Merkel terem sido abruptas, ela geralmente é tida como uma pessoa paciente, que tem uma visão ampla e, mesmo quando se trata da rápida reviravolta relacionada à energia nuclear, dona de um certo nível de seriedade. Quando se trata de sua coalizão, porém, as pessoas tendem a pensar em brigas, bloqueios, picuinhas e lutas internas sobre minúcias. No domingo passado, a cúpula da coalizão não fez nada para mudar isso”.

O Financial Times Deutschland escreveu:

“A atual coalizão da chanceler Angela Merkel tem muita sorte. Ela entrou para o governo assim que a economia começou a melhorar, as receitas fiscais começaram a aumentar e as deduções em folha de pagamento começaram a diminuir. Também foi no momento em que a crise do euro incentivou os investidores a se bandearem para a Alemanha – o que levou as taxas de juros a quase zero. Não, sorte não é problema para essa coalizão. Mas a sorte pode se transformar em um problema se o governo continuar a agindo como se simplesmente vá continuar no poder e não decida se preparar para tempos mais azarados”.

“Mas essa é exatamente a filosofia que está por trás de todas as decisões tomadas durante a cúpula realizada pela coalizão na noite de domingo. Elas não se destinam a eliminar o déficit orçamentário federal no longo prazo. Mas, em vez disso, essas decisões estão relacionadas a uma crença de que o déficit continuará a cair por si só. Pelo menos até setembro de 2013, quando ocorrerão as eleições federais e para o Estado da Baviera”.

“Essa atitude é contrária ao planejamento orçamentário responsável Em vez disso, ela mostra a adesão a um tipo de miopia que Berlim acusa os outros países europeus de possuir. O governo alemão deveria ter aprendido pelo menos uma coisa com a Grécia: a boa sorte um dia acaba”.

O Süddeutsche Zeitung, de centro-esquerda, escreveu:

“O governo de coalizão exibe as mais baixas taxas de desemprego dos últimos anos, está reduzindo as contribuições para os fundos de seguridade social, está abolindo o pagamento trimestral extra para o seguro de saúde, tem dinheiro para construir estradas, encontrou alguns bilhões extras para pagar aos pais por assistência doméstica infantil e pretende alcançar um orçamento equilibrado em 2014. Apesar de tudo isso, o governo ainda tem que lutar pela reeleição...”

“Com certeza, a unanimidade do julgamento podre emitido pela mídia a respeito do acordo firmado pelo governo deve-se apenas ao instinto de manada dos jornalistas e à relutância em corrigir estereótipos profundamente enraizados. O que resta – à luz da alta popularidade da chanceler – é a clara rejeição desta coalizão pelos eleitores e a continuada recusa em vincular os dados econômico sólidos e um padrão de vida digno às ações do governo”.

O Frankfurter Allgemeine Zeitung, de centro-direita, escreveu:

“O atual estado dos cofres públicos da Alemanha permitiu que o partido e os líderes parlamentares de CDU, CSU e FDP realizassem todos os desejos uns dos outros. Cada parceiro foi atendido e todas as suas condições também. Ao mesmo tempo, soa a hostilidade antidemocrática os críticos das ações da coalizão falarem sobre ‘negociatas’. A negociação política – que é a característica de nosso sistema parlamentar federal – vive de compromissos”.

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