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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Sergei Guriev diz porque não volta à Rússia

Sergei Guriev
Na segunda-feira, 27 de maio, eu estava em férias em Paris quando decidi que minhas circunstâncias pessoais não me permitiam voltar à Rússia pelo futuro previsível.

Àquela altura eu estava dirigindo uma universidade em Moscou, a Nova Escola Econômica, fundada há 20 anos. Eu me orgulhava do que eu e meus colegas tínhamos realizado. A escola se transformou em um modelo para outras universidades na Rússia, assim como para outros mercados emergentes.

Infelizmente, eu não podia voltar à Rússia e, portanto, tive que pedir demissão da escola. O conselho convocou uma reunião extraordinária em 30 de maio para aceitar minha demissão e nomear um reitor em exercício e me pediu para não falar sobre minha decisão para a mídia. Nem o conselho nem eu achamos que deveria ser um grande evento de mídia.

Eu tive que renunciar a cadeiras no conselho de várias empresas russas. Meu relacionamento mais antigo como membro de conselho foi com o Sberbank, o maior banco da Rússia e um dos maiores da Europa.

Essa também foi uma decisão triste e dolorosa. Eu fui membro do conselho do Sberbank por cinco anos, período no qual o banco passou por uma transformação incrível, de uma instituição sonolenta ao estilo soviético a uma empresa financeira dinâmica e moderna voltada ao consumidor, e foi empolgante participar dessa transformação.

O Sberbank realizaria sua reunião anual de acionistas em apenas quatro dias, de modo que me apressei a apresentar meu pedido para que meu nome fosse retirado da lista de candidatos ao novo conselho. O Sberbank é uma empresa de capital aberto com ações listadas na Rússia e nos Estados Unidos, de modo que eu sabia que tinha que enfatizar em minha carta que a decisão fora tomada por considerações pessoais, não relacionadas ao banco.

Seguindo a lei, o Sberbank imediatamente revelou esse fato. E minha vida tranquila mudou totalmente. Jornalistas começaram a me telefonar, perguntando os motivos da renúncia. Como membro do conselho de uma empresa de capital aberto, eu tive que tranquilizar jornalistas e investidores de que minha saída não tinha nada a ver com o banco e de que não tinha nenhuma informação negativa sobre o banco. Mas, seguindo o pedido do conselho da Nova Escola Econômica, eu também tinha que me manter calado sobre os "motivos pessoais".

Como renúncias voluntárias nos conselhos de grandes empresas são muito raras na Rússia, os jornalistas começaram a procurar por suas próprias explicações e logo descobriram quais eram.

A verdade é que eu não podia voltar para a Rússia porque eu temia perder minha liberdade.

Por quê? Desde fevereiro, eu fui repetidamente contatado e interrogado pelo Comitê Investigativo da Federação Russa como "testemunha" no "Caso 18/41-03". Por mais surreal que possa soar (como muitas outras coisas abaixo), trata-se do caso original contra Mikhail Khodorkovsky, o dono preso da companhia de petróleo Yukos, lançado em 2003.

De lá para cá, os promotores aparentemente usaram esse caso para produzir novos "subcasos" --e penas de prisão-- para Khodorkovsky, seu sócio Platon Lebedev e alguns de seus colegas. Esses casos costumam ser vistos na Rússia como politicamente motivados. Isso foi especialmente verdadeiro no chamado "segundo caso" contra Khodorkovsky e Lebedev, em 2010.

O grande ultraje com as sentenças adicionais proferidas contra eles em 2010 levou ao pedido do então presidente, Dmitri Medvedev, para que seu Conselho de Direitos Humanos realizasse uma avaliação do caso. O conselho reuniu um painel de nove economistas e professores de Direito (que me incluía) e nos pediu para estudar o caso e dar nossos pareceres. E foi o que fizemos. Apesar de trabalharmos independentemente, todos os especialistas declararam que o caso não continha prova convincente de culpa de Khodorkovsky ou Lebedev.

Esses pareceres não tinham peso legal, sendo apenas declarações públicas de acadêmicos independentes, expressos após a conclusão do julgamento. Foram, portanto, amplamente desprezados. Mas não esquecidos.

Logo após o retorno de Vladimir Putin ao Kremlin como presidente, em maio de 2012, o porta-voz do Comitê Investigativo, Vladimir Markin, disse que o comitê analisaria a objetividade e a independência dos especialistas. Já no final de 2012, alguns especialistas foram interrogados, foram realizadas buscas em seus escritórios e até mesmo casas, seus computadores e documentos foram confiscados.

Quanto a mim, os interrogatórios tiveram início em fevereiro de 2013. Depois disso, eu soube que, em fevereiro, um colega de Putin conversou com ele sobre minha situação, e o presidente assegurou ao colega que eu não tinha nada com que me preocupar. Isso não pôs fim à investigação --eu fui interrogado duas vezes e me exigiram toda sorte de documentos e informação pessoal. Além disso, a investigação introduziu "manobras operacionais" --um eufemismo da polícia para vigilância. Sempre que eu ou minha mulher (que não tem nada a ver com o caso) cruzávamos a fronteira russa, nós éramos alvo de atenção especial.

Interessantemente, durante os interrogatórios, os investigadores me pediam para apresentar "álibis", apesar de não me explicarem para o quê, e insistiam que eu era uma "testemunha", não um "suspeito".

Então, em 25 de abril, os investigadores marcaram um interrogatório, mas em vez disso foram ao meu escritório com um mandado judicial para apreensão dos meus e-mails dos últimos cinco anos.

Na Rússia, e-mails são tratados como correspondência e, portanto, são protegidos pela Constituição. Para apreendê-los, os investigadores precisam de um mandado judicial. O mandado não dava razões específicas para a apreensão dos meus e-mails, mas concluía que precisavam ser apreendidos. Quando me queixei aos investigadores, um deles disse que eu estava em melhor situação do que Andrei Sakharov, o dissidente soviético que foi enviado para o exílio interno, em Gorki. Eles também indicaram que tinham um mandado para revistar minha casa.

Isso demonstrou que os investigadores podem produzir qualquer mandado de busca e apreensão que desejarem, sem qualquer respeito por meus direitos, e que podem fazê-lo sem aviso.

Eu conclui que meu próximo encontro com eles poderia resultar na perda da minha liberdade. Eu comprei uma passagem só de partida da Rússia e não voltarei ao meu país.

Desde que tomei minha decisão, muitos observadores me chamaram de "símbolo da repressão política", um dissidente e um mártir político. Ao mesmo tempo, o presidente Putin e seu porta-voz, Dmitri Peskov, disseram que minha decisão de partir foi movida por circunstâncias pessoais e familiares.

Eles estão corretos. Eu nunca fui um político e não sou um refugiado político. Eu parti da Rússia por motivos pessoais: eu, pessoalmente, prefiro permanecer livre. Eu também tive razões familiares: minha família deseja --e merece-- me ver livre. Nesse aspecto, eu tive apenas motivos pessoais e familiares para partir da Rússia.

Eu também não quero ser um "símbolo". Eu sou apenas uma pessoa simples e meu caso é isolado. O que aconteceu comigo é semelhante a um acidente ou uma doença rara. Todo mundo corre o risco de contrair uma doença dessas, mas também podem ter sorte em evitá-las. Há características comportamentais que reduzem os riscos --não defender um estado de direito ou condenar a corrupção, por exemplo. Assim como outras doenças graves, assim que você a contrai, as pessoas enviam palavras de consolo, mas todas entendem que nada pode ser feito.

Ou quase nada. Os julgamentos de Khodorkovsky mostraram que há uma terapia simples, mas eficaz: testemunhas que partiram da Rússia estão vivas e passando bem. Aquelas que permanecem e se recusam a cooperar com os promotores acabam na prisão. Uma delas, Vasily Aleksanyan, não viveu para comemorar seu 40º aniversário.

Um comentário:

  1. É, sr. Serguei Guriev, como sr. sabe á RÚSSIA nunca teve, e espero que nunca tenha, a máfia do dinheiro, bolsa, lobby's enfim a parafernália deese capitalismo criado pelos ingleses e autenticado pelo EUA e OTAN. Portanto pensar que na RÚSSIA esse voraz capital americano vai entrar lá pelas falcatruas daqueles que jogam só com dinheiro, como wall street; é ser inocente. Ou você trabalha para os interesses dos EUA e sua patota ou você com a Rússia, independente da cara do governante. Só espero que vc não venha dar informações a CIA/ ... pq é a unica coisa que lhes interessa ou então degradar a RÚSSIA na imprensinha ocidental. Boa sorte no novo emprego e não reclame qdo conhecer a verdade dos fatos e não tente voltar para a Mãe Pátria. Ah sim, hoje vc é evidência, pois vão apagar os seus faróis. Aguarde!

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