Social Icons

https://twitter.com/blogoinformantefacebookhttps://plus.google.com/103661639773939601688rss feedemail

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Der Spiegel: Na Líbia, prisioneiros e guardas carcerários trocam de lugar após revolução


A busca por justiça está levantando questões difíceis na nova Líbia sobre quem é culpado pelas atrocidades da era Gaddafi, tal como o massacre da prisão de Abu Salim. Um experimento único está ocorrendo em uma prisão, onde antigos presos confrontam seus torturadores

A busca pela justiça na nova Líbia está levantando questões difíceis sobre de quem é a culpa pelas atrocidades da era Kadafi; esta imagem mostra um um grafite na prisão de Abu Salim de um massacre infame em 1996 
Mohammed Gwaidar poderia acorrentar o homem na parede, pendurá-lo, enviar eletrochoques por seu corpo e bater nas solas dos pés até incharem como dois balões. De certa forma, seria justo, porque foi precisamente isso que o homem na cela seis da prisão de Hadba na capital da Líbia, Trípoli, fez com ele. Gwaidar, 48, ficou trancafiado por 11 anos por convicções religiosas e por tentar derrubar o governo. Hoje, a prisão abriga um ex-primeiro-ministro, 14 coronéis no serviço de inteligência e dezenas de agentes carcerários –e Hamsa, seu antigo torturador.

Mas Gwaidar não quer torturar o homem. Em vez disso, quer conversar com ele. Ele quer uma resposta para uma pergunta que o persegue por todos esses anos. Por que mais de 1.200 pessoas tiveram que morrer no massacre de Abu Salim em 1996? Por que tantas outras tiveram que sofrer? Por que tanto ódio?

Eles conversaram pela primeira vez em fevereiro, o torturador e sua vítima, que hoje é diretor da prisão de Hadba. Hamsa foi preso por homens de Gwaidar enquanto se escondia com a família no oeste da Líbia, pobre demais para fugir para o exterior.

Sua primeira conversa é curta: “Você se lembra?”, pergunta Gwaidar. Hamsa balança a cabeça. Gwaidar mostra suas mãos ao prisioneiro, mas Hamsa olha para o chão. Gwaidar se ajoelha e dobra-se para frente, cruza as mãos atrás das costas e fica na ponta dos pés. “Foi isso que você fez comigo. Fiquei pendurado assim por 10 dias”, ele grita. Agora Hamsa está olhando para os pulsos de Gwaidar, que têm uma marca fina, como se alguém tivesse tentado cortar suas mãos. “Eu sabia que você viria me pegar um dia”, diz ele. E depois começa a chorar.

Quando os prisioneiros se tornam os guardas
Um experimento único, sem regras, está ocorrendo na prisão de Hadba, onde os antigos prisioneiros hoje são os guardas da prisão e os antigos guardas são os prisioneiros. O que eles têm em comum é Abu Salim, a mais notória prisão para prisioneiros políticos de Trípoli, o epicentro do medo durante a ditadura de Muammar Gaddafi. Milhares foram torturados ali. E em 1996, cerca de 1.200 presos foram executados, como retribuição brutal pela revolta contra as condições desumanas da prisão.

Não apenas na prisão de Hadba, mas por todo o país, essa troca de papéis está ocorrendo em um vácuo legal e institucional. Os revolucionários prenderam mais de 7.000 pessoas, e muitas ainda estão em prisões secretas. Saif Al-Islam Gaddafi, que deve ser julgado na cidade de Zintan, no noroeste da Líbia em setembro, é o mais famoso dos presos. A maior parte, porém, eram meros operários na grande roda da ditadura: informantes, assassinos, torturadores e mercenários. Agora estão nas mãos daqueles que combateram e oprimiram. E surge a questão do que deve acontecer com eles. Alguns querem vingança, outros querem perdão e todos querem justiça. Mas como pode haver reconciliação em uma nação que sofreu tanto?

A prisão talvez seja o lugar para começar a procurar respostas. Os crimes monstruosos de Abu Salim são a ferida mais profunda na memória coletiva dos líbios. É o marco zero de Gaddafi, a epítome da brutalidade do regime e o início de seu fim.

Os sobreviventes e famílias das vítimas vinham protestando em Benghazi todo sábado desde 2007. Então, Fathi Terbil, advogado que representava as famílias das vítimas, foi preso em 15 de fevereiro de 2011. No dia seguinte, milhares foram às ruas para exigir sua libertação, marcando o início da revolução, que terminou quando os insurgentes encontraram o ex-ditador em um tubo de concreto e Mohammed Gwaidar tornou-se diretor da prisão.

Apenas memórias
Cerca de 300 homens estiveram envolvidos no massacre de Abu Salim. Cerca de 100 deles foram presos e a maior parte está detida na prisão de Hadba. Vinte homens cujas vidas estão inextrincavelmente ligadas a Abu Salim agora são seus interrogadores. Alguns são prisioneiros, enquanto outros perderam irmãos e filhos ali. Juntos, eles gravaram confissões, permitiram que as vítimas confrontassem os perpetradores e reconstruíram o massacre.

Gwaidar mostra um fichário sobre a mesa, dizendo que seria melhor que nós víssemos por nós mesmos. De acordo com os registros, o ex-chefe da inteligência Abdullah Al-Senussi e primo de Gaddafi, Mansour Dhao, deram as ordens para o massacre. Senussi fugiu para a Mauritânia enquanto Dhao foi preso em Misrata. Estima-se que 1.270 dos 1.700 presos morreram, inclusive 120 que estavam doentes. Eles foram levados para os pátios da prisão. Por duas horas, os guardas atiraram na multidão do telhado. No dia seguinte, os corpos foram levados para uma vala em uma construção. Quatro anos depois, os mortos foram retirados da terra, e os agentes carcerários tentaram destruí-los com substâncias químicas e triturá-los com uma máquina de quebrar pedra. Eventualmente, queimaram os corpos e jogaram as cinzas no mar.

Não há mais evidências, apenas memórias, e há homens como Hamsa que, apesar de sentir remorso, não se sente culpado. “Eu queria estar morto”, diz Hamsa, descrevendo o momento que ficou diante de Gwaidar. Ele mesmo conta a história do primeiro encontro, após o diretor da prisão tirá-lo da sua cela.

O ex-torturador é um homem alto e magro, de 59 anos, que passou 20 anos trabalhando em Abu Salim. Apesar de hoje ser esguio, está claro que ele foi forte. Ele tem olheiras escuras e um sorriso que lembra o do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein –estranhamente alegre e sombrio ao mesmo tempo.

“Eu não contei quantas pessoas matei”
Há três homens no escritório. Hamsa está sentado em uma poltrona, enquanto Gwaidar está no sofá a sua frente. Perto de Gwaidar está seu colega Mouad Khalil, 40, que tem um rosto suave de bebê e trabalhava como vendedor de móveis antes da revolução. Ele só quer que utilizemos seu apelido.

Por que Hamsa está ali? “Fui um dos guardas da prisão que participou nos incidentes em Abu Salim”, diz ele. “Também participei do fuzilamento, sob comando de Abdullah Al-Senussi e do diretor da prisão. Não contei quantas pessoas matei. Eles nos davam armas novas. Eu só atirava”, diz Hamsa com uma voz suave e monótona, de um homem que passou 16 anos justificando suas ações para si mesmo.

Se ele torturou os outros presos? Os olhos de Gwaidar se movem nervosamente de um lado para o outro. Ele tenta não olhar para Hamsa, e ainda assim não consegue evitar de olhar para seu rosto sorridente. “Sempre tentei ser legal”, diz Hamsa. “Não era um dos maus. Não me lembro de ter torturado ninguém. Se torturei, minhas desculpas”.

Gwaidar pega um copo de água, se afunda no sofá e tenta parecer desapegado. “Eu o perdoo”, diz subitamente.

“Mas você cometeu tortura! Você o torturou!” diz Khalil, incapaz de controlar sua fúria.

Pronto para perdoar
Uma das ironias da vida é que os que sofreram mais, muitas vezes, são os mais capazes do perdão. Khalil, contudo, não quer esquecer. Ele está cheio de ódio contra os homens que mataram dois de seus irmãos em Abu Salim. Ele teve que esconder seu ódio por tantos anos, porque era perigoso até mesmo mencionar o massacre.

“Sim, nós tratávamos mal os prisioneiros. A comida era horrível. Muitos tinham tuberculose, e nós batíamos neles”, diz Hamsa. Mas ele se recusa a admitir o que fez ao homem sentado no sofá.

“Ele era a máquina de tortura”, diz Gwaidar, como se Hamsa não estivesse na sala. “Seu único trabalho era torturar os prisioneiros. Lembramos de cada segundo, mas ele não, porque torturou tantas pessoas”.

Hamsa sorri e diz: “Eram minhas ordens. O que eu podia fazer? Meu primo estava na prisão e eu estava sendo observado. Não tinha escolha”.

Que tipo de punição seria justa? “Não sei”, diz Hamsa. “Está nas mãos de Deus”.

Demonstração de lealdade
Depois de devolver Hamsa a sua cela, o diretor diz: “Queremos julgar todos que derramaram sangue. Agora precisamos julgar os assassinos. É importante para a reconciliação nacional”.

Mas quem é culpado? Gwaidar interrogou muitos dos assassinos de Abu Salim e todos disseram a mesma coisa: se não tivéssemos matado, teríamos sido mortos. Gwaidar diz que não sabe o que teria feito na posição deles. “Mas acredito que eles também fizeram aquilo para demonstrar sua lealdade. Ninguém deu uma desculpa, nem no segundo dia do massacre. E mesmo aqueles que tinham folga apareceram para participar. Hoje alguns choram quando falam a respeito, enquanto outros não demonstram emoção alguma”.

Por quê? Nenhum dos prisioneiros parece ter uma resposta. E talvez esta seja a pior coisa de todas, o fato de que talvez não haja uma explicação.

Onze anos perdidos
No dia anterior, Gwaidar voltou a Abu Salim. Era dia 29 de junho, aniversário do massacre, e pela primeira vez os líbios puderam publicamente homenagear os mortos, 16 anos após o dia fatídico em 1996.

Quando os rebeldes capturaram Trípoli há um ano, milhares de ex-presos e suas famílias fizeram uma peregrinação a Abu Salim. Gwaidar esperou até outubro. Após sua libertação, ele nunca falou sobre o massacre e a tortura que sofreu; ele reprimiu as memórias fundo em si mesmo.

Mas isso não ajudou, e agora ele está de volta. Ele passa pelas plantas que cresceram na porta, para entrar na prisão que tirou 11 anos de sua vida, de 1989 a 2000. Durante esses 11 anos, a filha dele nasceu, cresceu e foi para a escola, e ele nunca a viu. A mulher, Fadila, esperou por ele sem saber, na maior parte do tempo, se estava vivo.

Neste dia, ele leva Fadila à prisão com ele pela primeira vez. “Por tantos anos, tentei imaginar o que estavam fazendo com ele”, diz ela. Mas depois que ele foi solto, ela não ousou perguntar –e ele nada disse.

Gwaidar foi a Abu Salim várias vezes desde aquela primeira visita, mas todas as vezes é difícil. “Foi aqui que Hamsa me pendurou”, diz ele, apontando para um pátio coberto de detritos. “Fiquei ali pendurado por dias. Eu alucinei e falei comigo mesmo até perder a consciência. Então eles me trancaram em uma cela de menos de um metro quadrado. Fiquei lá por 25 dias. Foi um inferno”. Por seis meses, ele não conseguiu mexer as mãos.

Ele entra na cela onde ficou preso por sete anos, junto com 17 outros presos. Ele passa as mãos pela porta de metal e encontra um furo minúsculo. “Nós vimos Abdullah Al-Senussi por esse buraco, no dia do massacre”. Todo mundo nesta seção foi morto, exceto pelos homens desta cela. Foi a porta que os salvou. Ela emperrou quando os amotinados tentaram abrir com as chaves que roubaram dos guardas. Como resultado, os homens ficaram presos na cela e não puderam participar do motim. Por isso foram poupados da vingança sangrenta.

A vida não é normal
Para celebrar a data, os antigos prisioneiros montaram uma exibição em um dos pátios onde as mortes ocorreram. Algumas cartas que foram contrabandeadas para fora da prisão foram coladas às paredes e os objetos que os prisioneiros fizeram para tornar suas vidas mais suportáveis são apresentados.

Gwaidar anda de mesa em mesa como se estivesse em transe. Ele passa as mãos por uma bola de futebol, costurada com pedaços de tecido. Ele pega um gorro tricotado por um prisioneiro contra o frio do inverno, rosários feitos de caroços de azeitona, sapatos feitos de pedaços de carpete e borracha –tentativas desesperadas de preservar uma pequena parte de humanidade em um lugar desumano.

Na última mesa está um pedaço de pau, uma mangueira, um tubo de ferro e um cabo.  “Era com isso que batiam em nós, não apenas durante os interrogatórios, mas incessantemente. Toda vez que pegávamos nossa comida, enfrentávamos uma chuva de golpes”.

Será possível viver normalmente depois dessas experiências? “Estaria mentindo se dissesse que minha vida é normal”, diz Gwaidar. “Por muitos anos, não me comuniquei com ninguém que não fosse da minha família. Eu suspeitava de todos, achavam que eram do serviço de inteligência”. Depois de sua soltura, Gwaidar pegou a família e se mudou para o mais longe possível dentro da Líbia, para Kufra, a 1.200 quilômetros de distância, no meio do deserto do Saara. Ele queria começar uma vida nova. Mas nunca conseguiu apagar as memórias.

“Ele é tão frio”
Poucos dias após a visita a Abu Salim, reencontramos Gwaidar em sua prisão. Ele está vestindo um uniforme de polícia bem passado, o mesmo que era usado por seus atormentadores, exceto que agora tem bordados o crescente e a estrela da revolução. Ele agora é coronel, mas não está totalmente claro quem são seus superiores. Oficialmente, o promotor militar está no comando, mas não oficialmente as milícias ainda detêm poder.

São nove da manhã, hora da ronda matinal. Ele desce o corredor até as celas, menos de 100 passos de seu escritório. Cada cela tem uma porta de metal pesada, com cadeado. Ele para na frente da cela seis e abre uma portinhola. Bom dia, diz ele, e chama Hamsa.

Está tudo bem? Como está a comida? Hamsa acena e se mexe em seu colchão. Ele compartilha a cela com seis outros presos, todos olhando apáticos para a porta. Gwaidar vem conversando com Hamsa há quase um ano. Ele traz comida, pergunta se precisa de alguma coisa e o questiona sobre sua família. Ele tentou descobrir mais sobre ele, buscando uma peça do quebra-cabeça que possa explicar por que alguém se torna um assassino sádico.

Mas Hamsa não dá explicações. “Ele é tão frio”, diz Gwaidar, que já desistiu. Não consegue mais aturar os sorrisos e desculpas de Hamsa. Ele perdoou Hamsa, diz ele, para ter paz de espírito, e porque acredita que é isso que Deus quer que ele faça, apesar de sua mãe dizer que não deveria, e sua mulher dizer que os prisioneiros deveriam ser torturados, não tão severamente, mas o suficiente para saberem como é.

Mas Gwaidar se recusa a ser arrastado de volta para o abismo do ódio. Nada é mais importante para ele do que garantir que os prisioneiros recebam a mesma comida que os guardas e que não haja tortura na prisão de Hadba. É impossível ter certeza, mas nenhum dos presos fala de abusos, mesmo quando os guardas estão distantes. De acordo com o grupo Human Rights Watch, é principalmente nas prisões em Zintan e Misrata onde a tortura ocorre.

Ameaçado e intimidado
Os julgamentos começarão logo, diz Gwaidar, para que tudo isso possa terminar e para que ele também possa finalmente encontrar a paz. Mas será possível fazer justiça na Líbia hoje, para vítimas quanto para perpetradores?

Alguns juízes foram corajosos durante a ditadura e outros desde então foram demitidos. A Líbia também tem um parlamento livremente eleito, chefiado por um membro antigo da oposição. As condições básicas não são ruins, mas ainda assim, após 42 anos de injustiça, há grande tentação de interpretar a lei de uma forma que favorece os vitoriosos.

Houve alguns julgamentos. Mercenários da Europa Oriental foram condenados a longas sentenças na prisão em Trípoli. Em Benghazi, os novos líderes do país abriram inquéritos contra possíveis assassinos e traidores, mas não é fácil, porque os advogados dos réus recebem ameaças.

Muitos dos critérios para julgamentos justos ainda não foram cumpridos, os juízes ainda não são imparciais, os prisioneiros muitas vezes não têm advogados e são ameaçados e intimidados, diz Hana Salah, que trabalha para o Human Rights Watch na Líbia. Por outro lado, diz ela, “Abu Salim é o maior trauma neste país. O primeiro passo para verdadeiramente lidar com a ditadura é a justiça. Isso significa que os perpetradores de Abu Salim devem ser condenados”.

E tem que acontecer o mais rápido possível, acrescenta Salah.

Isso porque o país continua profundamente dividido entre revolucionários e leais ao partido. Sem julgamentos, a Líbia poderia cair em um redemoinho de vingança que complicaria os esforços para estabilizar o país. Dezenas, talvez milhares de pessoas já foram mortas em atos de vingança.

Atos de vingança
Abu Salim paira sobre o país como uma maldição, e nem todos estão dispostos a perdoar e esquecer. Os dois irmãos mortos de Mouad Khalil, o vendedor de móveis, perduram no ódio dos vivos.

Um de seus parentes, um jovem quem mal saiu da adolescência, diz que matou 37 pessoas, a maior parte durante a luta pela libertação, mas também depois, em atos de vingança. Para ele, isso é justiça. “Matamos os que trabalhavam voluntariamente para Gaddafi. Os que foram forçados, deixamos viver”. Ele não quer ser identificado, porque sua família não sabe desses detalhes, diz ele. Nada disso pode ser confirmado, mas ele tem marcas de tiro no ombro e um fêmur fraturado. “Meu motivo foi que meus familiares foram mortos em Abu Salim”, diz ele. “Eu queria vingá-los”.

Mas agora ele não consegue tirar as imagens da cabeça, e passa horas sentado sozinho em uma praia, chorando.

“Se eu tivesse uma arma e o encontrasse na rua, eu mataria Mukhtar. Essa seria a punição correta”, diz Mouad Khalil. “O Alcorão afirma que aquele que mata deve ser morto”. Mas agora ele trabalha na prisão e deve seguir as regras. Os juízes devem decidir, diz ele, mas se a justiça for servida, no final Mukhtar teria que ser condenado à morte.

Mukhtar é um dos presos em Hadba; um homem de 50 anos com uma cabeça quadrada e um olhar simples, que ajudou a executar 120 prisioneiros em Abu Salim. “Estavam sentados assim”, diz Mukhtar se levantando da cadeira e sentando no chão, de pernas cruzadas, com as mãos atrás das costas. “Havia três fileiras de 10 pessoas cada. Eu passei por eles e atirei neles com minha pistola”. Ele se senta novamente na cadeira. “Não sei por que tínhamos que fazer isso. Foi só uma ordem”.

“Eles queriam matar”
Ele se aproxima de Khalil e sussurra em seu ouvido. Fale alto, diz Khalil. Após o massacre, diz Mukhtar, ele trabalhou para a inteligência, espionando as pessoas e protegendo Gaddafi. Ele deve ter sido considerado leal, porque depois foi enviado para Europa para agredir manifestantes anti-Gaddafi durante manifestações. Ele também fez parte do grupo que atacou o ministro de relações exteriores da Arábia Saudita no Cairo, diz Mukhtar, com um toque de orgulho na voz.

Quando Khalil sai da sala, Mukhtar diz: “Mouad me ajudou a encontrar um apartamento para minha família. De outra forma, teriam ficado na rua”.

Então Mukhtar é levado para sua cela e Khalil diz com raiva: “Eles são assim, essas sujeitos. Eles queriam matar”. Talvez tenha sido Mukhtar quem matou seus irmãos, diz ele. Ele tentou descobrir mais sobre eles, mas nenhum dos prisioneiros em Hadba se lembra dos dois, apesar de um antigo guarda ter dito que os irmãos de Khalil, Ali e Adil, viram um ao outro pela primeira vez em sete anos no dia do massacre. Talvez tenham morrido juntos, diz Khalil. Esse pensamento lhe dá algum conforto.

Por que ele encontrou um apartamento para a família de Mukhtar? “Ele tem cinco filhos e uma jovem esposa. Eles não sabem o que ele fez”, diz Khalil. Ele sabe como é o sofrimento da família toda.

“Guardem a carne para os irmãos”
Sua própria família só descobriu que os irmãos estavam mortos quatro anos após o massacre. “Até então, íamos à prisão a cada três meses para deixar comida e roupas para eles. Éramos pobres, mas minha mãe sempre dizia: não comam a carne. Guardem para seus irmãos”.

Hoje ele sabe que o diretor da prisão vendia a carne em uma loja. Ele cobre o rosto com as mãos e chora. “É tão horrível, pensar que toda nossa esperança era por nada”.

Todos os dias, quando ele chega em casa do trabalho na prisão, a mãe pergunta e ele. Você pegou outro? Quando ele diz que sim, ela dá uma risada louca.

Quando tudo acabar, diz o jovem que matou 37 pessoas, ele quer fazer terapia e frequentar uma faculdade. Mouad Khalil planeja voltar a vender mobília. Mohammed Gwaidar quer voltar ao seu trabalho antigo: membro da agência de inteligência doméstica, o mesmo lugar onde Mukhtar trabalhou. Há uma linha muito fina entre culpa e inocência.

El País: Diante de uma juventude descrente, Fidel transforma cadete em ícone de castrismo

Elián Gonzáles, 6, sendo segurado por Donato Dalrymple, um dos pescadores que o salvaram do naufrágio, é retirado a força por um agente do Serviço de Imigração dos EUA do armário em que estava escondido, em Miami (EUA)

A imagem deu a volta ao mundo: agentes aparelhados como que para aniquilar extraterrestres apontam para um homem escondido em um armário, com um menino aterrorizado em seus braços. Era o amanhecer de 22 de abril de 2000. Aquela foto, ganhadora do prêmio Pulitzer, fixou o desenlace exagerado de uma história que havia começado seis meses antes, quando Elizabeth Brotons embarcou com seu filho Elián, de 6 anos, em um precário bote de alumínio para fugir de sua Cuba natal, rumo à Flórida. Um temporal pôs fim a seus sonhos. Antes de se afogar, a mãe colocou Elián em uma câmara de pneu. Foi como o encontraram dois pescadores americanos. O menino estava à deriva havia dois dias, protegido por alguns golfinhos. Era 25 de novembro, Dia de Ação de Graças. Falou-se em um milagre.

Elián foi entregue a seu tio-avô paterno, Lázaro González, que vivia em Miami. De Cuba, Juan Miguel, sobrinho de Lázaro e pai de Elián, reclamou o menino, que fora tirado da ilha sem sua autorização. Seus parentes alegavam a vontade da mãe. O que deveria ter-se resolvido em família se transformou em uma encarniçada batalha política entre Havana e Miami.

Fidel Castro fez do "balserito" [de "balseros", os cubanos que pegavam balsas improvisadas para fugir da ilha] o novo símbolo de sua luta contra o império (apesar de o governo de Bill Clinton apoiar a repatriação do menino) e pôs os cubanos a desfilar em manifestações incessantes. O exílio anticastrista montou guarda diante da casa dos González. O assunto foi resolvido com uma sentença judicial a favor do pai e o conseguinte "resgate" pelos militares. Em 21 de junho de 2000, o pequeno aterrissava em Havana. Fidel o exibiu como "o orgulho" de Cuba.

Hoje com 18 anos, ele é um jovem aprumado, de gestos sérios, decidido a dar a vida pela revolução. É cadete na Escola Militar Camilo Cienfuegos e membro destacado da União de Jovens Comunistas. O próprio Fidel Castro lhe entregou a carteirinha quando completou 14 anos.

Elián mora com seu pai, Juan Miguel, sua madrasta e dois irmãos pequenos em sua cidade natal, Cárdenas, a 150 quilômetros de Havana. A vida familiar deu uma virada radical. Juan Miguel deixou seu trabalho de garçom para ocupar um lugar na Assembleia do Poder Popular, o Parlamento cubano. Mudaram-se para uma casa mais afastada, com portão e vigilância. Segundo o jornalista cubano Iván García, "Elián vive em uma bolha", rodeado de agentes de segurança. Para falar com ele é necessária uma autorização.

Todo cuidado é pouco para proteger o herói e exemplo da juventude cubana. Quando Elián estava em Miami, Fidel acusou a "máfia" do exílio de lavar o cérebro do menino. "Não vamos fazer nenhuma dessas porcarias", disse Fidel. "Destruir a mente de um menino, mudando-a totalmente para fins vergonhosos de propaganda, é pior que a morte física." O "Comandante" se empenhou para neutralizar as sequelas nocivas que a passagem por Miami poderia ter deixado no garoto.

Até seu afastamento por motivos de saúde em 2006, Fidel Castro participou de alguns aniversários de "Eliansito" em Cárdenas e apareceu com o menino e seu pai em desfiles e comemorações. Aos 11 anos, o pequeno pronunciou um discurso na Tribuna Anti-imperialista de Havana. Aos 14 recebeu a famosa carteira das juventudes comunistas. Aos 15 se incorporou à chamada Batalha de Ideias, uma campanha de reafirmação revolucionária lançada por Castro quando Elián estava em Miami. Ao completar 16, coincidindo com o décimo aniversário de seu retorno, ingressou na Escola Militar. "Uma década depois de ter sido o joguete dos inimigos da revolução", escreveu então o jornal "Juventud Rebelde", "o vemos vestido de verde-oliva, preparando-se como oficial das Forças Armadas Revolucionárias". Houve missa de celebração em Havana, à qual assistiu Raúl Castro, já presidente. E em dezembro passado, quando completou 18 anos, Elián desfilou mais uma vez para exigir o regresso de cinco espiões cubanos condenados nos EUA.

Parece que Fidel Castro pode respirar tranquilo. Elián assumiu seu papel de modo exemplar, segundo suas declarações. Uma amostra: "Estou orgulhoso de poder dar uma contribuição à revolução"; "o papel da juventude é estar na vanguarda revolucionária"; "nosso comandante Fidel Castro é o máximo para nossa história, o povo somente de vê-lo retoma sua fé, suas esperanças e se sente feliz"... Nem sequer quando fala de suas diversões ele sai do roteiro: pratica caratê, gosta de nadar, de praia e sentar-se no parque, "como um jovem a mais desta revolução".

A influência que "Eliansito" possa ter em uma juventude saturada de ditadura é bastante duvidosa. Mas daquele episódio de 12 anos atrás ficaram duas marcas perenes na vida cubana. Por um lado, a Tribuna Anti-imperialista, construída em Havana diante da Seção de Interesses Americanos, para reclamar a devolução de Elián. "Aqueles meses foram um inferno", lembra Carmen, que de sua varanda vê os arcos de aço da praça. "Marchas, discursos, gritos por megafone. Uma loucura." O outro que ficou é a Mesa Redonda, um programa de doutrina que ocupa as noites da televisão.

A agradável Cárdenas, transformada em berço de um herói, também tem sua lembrança. O quartel de bombeiros abriga hoje o Museu da Batalha de Ideias, presidido por uma estátua de Elián com o punho erguido.

Não é o único lugar dedicado ao "balserito". O tempo parou no número 2319 da rua Segunda da Pequena Havana, a casa que abrigou Elián em Miami. O dormitório está intacto, com seus brinquedos, os bonecos Power Rangers, o uniforme da escola e o quimono de caratê. Na entrada, o pneu em que ele sobreviveu. No jardim, um retrato de sua mãe, diluída para sempre nessa história.

Delfín González, tio-avô de Elián, cuida do lugar. Seu irmão Lázaro deixou a casa. Nada, tampouco, voltou a ser igual para o ramo familiar do exílio. Esgotado, Lázaro, mecânico de profissão, mudou-se em busca de um pouco de paz. Sua filha Marisleysis, que com 21 anos serviu de "mãe adotiva" de Elián, se casou, tem uma filha e administra um cabeleireiro. E Donato Dalrymple, o pescador que o resgatou do mar (e que é o homem imortalizado na foto com ele nos braços, sob a mira do fuzil do agente da imigração), pendurou em sua sala um quadro do menino cercado de golfinhos.

A família não pôde contatar o jovem, mas seus parentes em Cárdenas os mantêm informados. Em uma ocasião Elián se referiu a eles para dizer: "Embora não tenham nos apoiado em tudo, não guardo rancor deles". A família se dividiu "por culpa de Fidel", dizem em Miami. E têm certeza de que se tivessem podido agir livremente Elián e seu pai teriam ficado com eles.

Como seria sua vida se tivesse ficado nos EUA?, perguntaram uma vez para Elián em uma dessas entrevistas autorizadas. "Como os interesses do império são monopolizar o mundo, desenvolver indústrias, obter capital, talvez pudesse ter muito dinheiro. Ou talvez não. Poderia ser manipulado como um brinquedo (...) quem sabe o que poderia fazer o império com o fim de continuar com suas patranhas. Me usariam como uma figura política para me manipular a seu modo."

Sabe-se que Elián visita com frequência um aquário de golfinhos perto de sua cidade. Talvez os golfinhos sejam a ligação mais íntima com aquela aventura dramática e extraordinária que mudou sua vida. Uma vida que até agora todo mundo decidiu por ele.

Ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan lança biografia com detalhes inéditos da diplomacia

Kofi Annan (esq.) se encontra com o chanceler sírio Walid Moallem, em Damasco, na Síria, em maio

Colin L. Powell, que quando foi secretário de Estado dos EUA ficou famoso por defender a guerra contra o Iraque em 2003 com um discurso emocionado no Conselho de Segurança da ONU, tinha mais dúvidas sobre as provas que ele usou para justificar a invasão liderada pelos EUA do que se sabia anteriormente, de acordo com um novo livro de memórias de Kofi Annan, secretário-geral da ONU na época.

Seis semanas depois da invasão do Iraque, escreveu Annan, Powell visitou seu escritório no 38º andar da ONU para comemorar com ele em particular as notícias de que as forças norte-americanas acreditavam ter encontrado laboratórios móveis no Iraque que o governo alegava estarem sendo usados por Saddam Hussein para fazer armas de destruição em massa – o motivo central da guerra.

“Kofi, eles me tornaram um homem honesto”, disse Powell segundo Annan.

Annan escreveu que “o alívio – e a exaustão – era palpável. Eu fui obrigado a sorrir junto com meu amigo, e queria compartilhar seu conforto”, embora o próprio Annan estivesse longe de estar convencido. Ainda assim, disse Annan, “eu só podia me impressionar com a resiliência deste homem, que passou por tanta coisa para argumentar a favor de uma guerra na qual ele claramente não acreditava”.

Esforços para contatar Powell para comentar sobre o episódio não tiveram sucesso imediato. Peggy Cifrino, sua assistente, disse que ele estava viajando e a contatava apenas esporadicamente.

Até agora, é claro, muitos livros foram escritos sobre o período precedente à Guerra do Iraque, no qual nenhuma arma de destruição em massa foi encontrada. O papel de Powell, que alguns historiadores dizem ter prejudicado de forma irreparável sua credibilidade e tirado dos trilhos sua carreira política, também foi bem documentado.

Mas o encontro entre Powell e Annan, como foi recontado pelo ex-secretário-geral, oferece um novo vislumbre sobre o grau de dúvida que Powell tinha em relação a colocar tropas no solo do Iraque.

Numa entrevista por telefone desde seu escritório em Genebra, Annan, 74, disse que decidiu usar aquele episódio no capítulo de abertura de seu novo livro, “Intervenções: Uma Vida em Guerra e Paz”, publicado pela The Penguin Press, porque o Iraque foi um tema muito importante durante seu mandato, que durou de 1997 até o fim de 2006. A Guerra do Iraque, disse ele, foi “um evento que dividiu a comunidade internacional – da maneira como a Síria está prestes a fazer”.

Além disso, disse Annan, ele via Powell como “um amigo, muito respeitado, um astro entre os ministros de exterior. E acho que a apresentação do caso dos EUA ao conselho o prejudicou um pouco, e eu queria transmitir o que aconteceu na época”.

O livro de 383 páginas, escrito em colaboração com Nader Mousavizadeh, ex-conselheiro de Annan e escritor de discursos, é uma crônica de sua vida diplomática. Nascido em Gana, Annan é o primeiro funcionário de carreira da ONU e primeiro africano da África subsaariana a ascender ao posto de secretário-geral. Ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2001 por seu trabalho na ONU.

Escrito parte como uma autobiografia, parte como aula de história, o livro está repleto dos relatos de Annan sobre encontros privados com líderes mundiais, incluindo Saddam, com quem ele certa vez teve um diálogo intenso em Bagdá, persuadindo-o a permitir que os inspetores de armas entrassem no palácio presidencial de Hussein.

O livro é também o esforço de Annan para explicar as circunstâncias por trás de alguns erros espetaculares em parte atribuídos a ele durante seu mandato como secretário-geral e antes, quando administrava o departamento encarregado das operações de paz da ONU.

Annan escreveu que os motivos por trás do fracasso da ONU em evitar o genocídio em Ruanda em 1994, para citar um exemplo, estão enraizados nos fiascos das operações de paz anteriores na Somália e no Haiti. Muitas nações que contribuíram com soldados pacificadores, liderados pelos EUA, desenvolveram uma aversão a assumir esse tipo de risco, escreveu Annan, e o Conselho de Segurança resistiu em ordenar medidas que podiam incluir o uso da força.

“Infelizmente, a primeira operação a ser criada neste clima foi a missão a Ruanda.”

No que pode ser uma surpresa para alguns críticos conservadores de Annan, ele expressou uma grande admiração no livro pelo presidente George W. Bush, apesar de suas discordâncias quanto à Guerra do Iraque e o que Annan via como uma abordagem equivocada de Bush em relação ao conflito palestino-israelense. Annan disse que o esforço de Bush para combater a epidemia global de Aids representou “o maior compromisso financeiro de qualquer país na história para lutar contra uma única doença”.

Annan disse que trabalhou no livro por dois anos e tinha quase acabado no inverno passado quando recebeu um telefonema de Ban Ki-moon, seu sucessor como secretário-geral, com um pedido extraordinário.

Ban queria que Annan negociasse uma solução diplomática para a revolta da Síria, como enviado especial representando a ONU e a Liga Árabe, onde a exasperação com o presidente Bashar Assad da Síria parecia intratável.

Ban disse que estava pedindo em nome de um grupo de ministros de exterior, que acreditavam que as habilidades de negociação de Annan poderiam ter sucesso na Síria.

Annan, que já havia negociado com o presidente da Síria antes, consentiu, e o livro foi postergado, com as páginas finais ainda por revisar.

“Estávamos quase entregando para os editores”, disse Annan.

A parte do livro que trata da Síria foi atualizada para incluir um frágil cessar-fogo que Annan negociou em março. Mas Annan não é mais o enviado especial, tendo renunciado frustrado no início de agosto à medida que o cessar-fogo foi ignorado.

Desde então, o conflito piorou. Os 300 monitores da ONU que deveriam observar o cessar-fogo deixaram a Síria, e um novo enviado especial, Lakhdar Brahimi, que já trabalhou para Annan, foi designado seu sucessor.

Ainda assim, disse Annan, ele decidiu há algum tempo que não fará mais revisões no livro.

Agora, disse ele, “as pessoas estão me perguntando se escreverei um segundo livro, sobre a Síria”.

Annan disse que em seus vários encontros com Assad em Damasco, ele sentiu que nunca de fato conseguiu se comunicar com ele. “Inicialmente, senti que ele estava em negação”, disse Annan. “Ele sentia que a maior parte dos seus problemas estavam sendo criados por estrangeiros. Se os estrangeiros deixassem a Síria em paz, ela resolveria seus problemas rapidamente.”

Líderes como Assad “tendem a acreditar no mundo que criam”, diz Annan.

Der Spiegel: Conhecida pelo estilo linha dura, chanceler alemã tenta melhorar imagem no exterior

"Merkel quer que a Alemanha volte a ser vista como uma força motora da integração europeia - e não simplesmente como o maior crítica da Grécia, como o país que deve levar a moeda comum para o abismo"

“Dama de ferro”, “líder impiedosa do Quarto Reich”: a imagem da chanceler Angela Merkel sofreu com a crise do euro. Subitamente, porém, Merkel é só sorrisos e está cheia de elogios para os esforços feitos pelos Estados endividados da zona do euro. Mas será que essa ofensiva de charme será suficiente para transformar a imagem da Alemanha na Europa?

Por fora, a nova Angela Merkel parece a antiga. Ela ainda veste o paletó de sempre –nesta quarta-feira em particular, usava um cor de camelo. Seu colar de âmbar reapareceu. O cabelo? Sempre igual. Ainda assim, algo mudou desde que a chanceler retornou de suas férias de verão. E isso ficou aparente na quarta-feira, em pé ao lado do primeiro-ministro italiano, Mario Monti, no primeiro andar da chancelaria em Berlim.

“A Itália fez grandes esforços”, disse a chanceler em forma de elogio. Ela chamou de “impressionante” a agenda de reforma do país para combater a crise e afirmou que estava pessoalmente convencida que “traria frutos”. No final da conferência com a imprensa, ela murmurou aos repórteres: “Foi bom estar aqui com vocês”.

São justamente as palavras de Merkel que estão diferentes. Ela não parece mais a fria chanceler de ferro. Merkel parece ter descoberto alguma empatia.

A chanceler não fala mais exclusivamente de obrigações de austeridade, de metas orçamentárias ou da ameaça de outro relatório da troika. Em vez disso, apesar de não ter subitamente cedido aos países em dificuldades da zona do euro, ela está expressando reconhecimento aos esforços que os governos estão fazendo. Ela elogia os sucessos, oferece gratidão e também fala das pessoas que estão sofrendo com a crise, mostrando simpatia diante de suas privações. No que concerne os principais itens em torno da crise do euro, ela permanece firme, mas seu tom se tornou mais conciliatório.

É como se Merkel tivesse passado algum tempo em suas férias de verão nas montanhas do Tyrol do Sul ponderando sobre sua imagem internacional. E há muito a ponderar. Montagens fotográficas horrendas se tornaram comuns na imprensa grega e, cada vez mais, na italiana. Algumas mostram a chanceler com um uniforme nazista, outras reclamam do “Quarto Reich”. Até a imprensa britânica se envolveu, com o “New Statesman” recentemente caricaturando Merkel como o Exterminador e declarando-a o “Líder Mais Perigoso da Europa”. Em uma entrevista ao “Spiegel” publicada há pouco tempo, o próprio Monti falou do ressentimento crescente no país: “Contra os alemães e algumas vezes contra a própria chanceler”.

“Um lado humano”
Merkel, é claro, é parcialmente culpada pela imagem negativa. Além de sua severidade diante da crise do euro, algumas vezes ela foi descuidada. Durante a campanha para as eleições em Renânia do Norte-Vestfália no início do ano, ela observou que os europeus do Sul precisavam trabalhar mais e tirar menos férias. Essa e outras manifestações similares ajudaram a cimentar uma imagem no exterior de uma disciplinadora teutônica impiedosa, obcecada com medidas de austeridade e pouco preocupada com as perdas e sofrimento que essas políticas representam.

Na Alemanha, Merkel atualmente aprecia um índice de popularidade maior do que vinha tendo há muito tempo, e até o partido dela ganhou alguns pontos em recentes pesquisas de opinião. Mas existe um risco considerável que a imagem pouco lisonjeira de Merkel no exterior possa eventualmente influenciar sua posição interna. Dentro da comunidade empresarial, há preocupação crescente que o sentimento contra os alemães na Europa possa eventualmente ter um impacto negativo em seus negócios.

Combater essa tendência não é fácil para Merkel, cuja marca de liderança é tão fria que é quase circunspecta. De fato, o “Spiegel” certa vez descreveu seu estilo de governo como robótico. Mas por enquanto, parece que ela decidiu consertar sua imagem simplesmente sendo mais legal. “Mostrar um lado humano sempre cai bem”, disse Klaus-Peter Schöppner, diretor da firma de pesquisa de opinião alemã Emnid.

A nova abordagem da chanceler se tornou aparente pela primeira vez na sexta-feira (24), durante a visita do primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, a Berlim. Quando Merkel conversava com o predecessor de Samaras, Georgios Papandreou, ela parecia uma diretora de escola falando com um aluno indisciplinado. Apesar da situação na Grécia não ter melhorado muito desde então, a recepção que ela deu a Samaras foi radicalmente diferente.

“A Alemanha tem um laço de amizade com a Grécia”, ressaltou Merkel. Ela insistiu que o país permaneceria na zona do euro, evocou o valor da moeda comum para a união europeia, pronunciou sua confiança em Samaras e, mais importante, expressou seu profundo respeito pelos “grandes sacrifícios” que os gregos estão tendo que fazer. Segundo ela, eles foram “forçados a suportar muito sofrimento”. Ela repetiu as declarações em uma entrevista à televisão no domingo e novamente em uma reunião na segunda-feira com líderes do seu partido, a União Democrática Cristã (CDU). No evento de terça feira na chancelaria, ela falou dos cortes em aposentadorias e salários na Grécia: “É profundamente doloroso”.

Na semana anterior, Merkel tomou parte em uma grande campanha lançada na Alemanha por uma série de fundações sem fins lucrativos, muitas das quais estão ligadas às maiores empresas do país, com o tema “Quero Europa”. A campanha visa combater a crescente fadiga dos alemães com a UE. Em um vídeo feito para a campanha, a chanceler diz: “Essas pessoas, com seu comprometimento com a Europa, estão falando diretamente ao meu coração”. Ela chamou de valiosos os esforços e iniciativas defendendo a ideia que o futuro da Alemanha está atado à Europa.

Merkel se afasta da linha dura
O novo tom de Merkel surge em uma época difícil para o euro, com semanas desafiadoras à frente. Muitos acreditam que a falência da Grécia é apenas uma questão de tempo. Ao mesmo tempo, a chanceler alemã está tentando encontrar um consenso para uma união política mais profunda dentro da EU. Merkel quer que a Alemanha volte a ser vista como uma força motora da integração europeia –e não simplesmente como o maior crítica da Grécia, como o país que deve levar a moeda comum para o abismo. “Ela está agindo muito diplomaticamente para não ser taxada como linha dura”, disse Schöppner da Emnid.

O sucesso da campanha de Merkel não está inteiramente sob seu controle. Enquanto seus parceiros de coalizão, os Democratas Livres, diminuíram o volume de suas críticas à Grécia recentemente, o partido irmão do CDU, a União Social Cristã, não demonstrou tal tendência. Recentemente, o secretário-geral do partido, Alexander Dobrindt, censurou fortemente a Grécia. Merkel imediatamente se distanciou das declarações. Manfred Güllner, diretor do Forsa Institute, disse que Merkel está “se dissociando conscientemente” de tais sentimentos contra a Grécia. “Ao ser agradável, ela será percebida de forma diferente do que os populistas do euro”, disse ele.

Merkel sabe que cada palavra dura tem o potencial de arruinar seus esforços para melhorar sua imagem e a do país. Isso é algo que ela gostaria de evitar, particularmente agora que seus esforços começaram a dar frutos. Durante sua visita em Berlim, o primeiro-ministro Samaras falou de “começar novas relações”. A mídia grega também notou o tom conciliador. “O gelo quebrou”, escreveu o “Ta Nea”, de Atenas. O conservador “Kathimerini” observou “uma fissura no muro de Berlim”.

El País: Hollande e Merkel reconstroem o eixo franco-alemão à frente da União Europeia


Paris e Berlim criam um grupo de trabalho bilateral para reformar a União. O novo organismo conjunto tomará decisões "sobre Espanha e Grécia"

Angela Merkel e François Hollande
Acabaram-se as invectivas contra a "fatal austeridade", a exigência de políticas de crescimento e a luta pelo "necessário reequilíbrio da Europa com os países do sul", entre outras coisas. Pressionado pelos índices de desemprego, pela estagnação econômica e por pesquisas penosas, o presidente francês, François Hollande, parece ter hasteado a bandeira branca diante da chanceler alemã, Angela Merkel, e opta por regressar ao passado marcado por seu antecessor, Nicolas Sarkozy.

Assim que voltou de suas férias, Hollande decidiu reconstruir o eixo franco-alemão. Desse modo, as duas capitais, Berlim e Paris, formarão um grupo de trabalho bilateral e permanente, que segundo o ministro da Fazenda francês, Pierre Moscovici, tomará "decisões sobre a Grécia e a Espanha" e sobre as reformas estruturais da zona do euro.

À falta de conhecer os resultados, o movimento limita o funcionamento do diretório que foi conhecido como Merkozy e que manejou de maneira errática e autoritária as rédeas europeias nos últimos cinco anos. "O giro foi decidido. Voltemos à situação anterior, quando França e Alemanha eram o motor da UE. A fase das bravatas de uso eleitoreiro terminou", afirmou na quarta-feira (29) uma fonte do Ministério da Fazenda francês, no sempre bem informado semanário "Le Canard Enchainé".

O semanário confirmava assim o adiantado pelo jornal "Le Monde": Hollande e Merkel concordaram em solucionar antigas rixas e querem decidir sozinhos o futuro da zona do euro. O ressurgimento do eixo ficou discretamente amarrado entre a quinta-feira 23 e a segunda 27, durante várias visitas a Berlim da cúpula maior francesa. Primeiro Hollande se encontrou com Merkel na chancelaria, e ambos pactuaram vigiar mais de perto o governo de Atenas e negar-lhe mais tempo para aplicar os cortes. Na segunda, Moscovici, braço-direito de Hollande, se reuniu com seu homólogo, Wolfgang Schäuble, em Berlim e ambos projetaram um método de trabalho para as próximas semanas e meses.

O grupo de trabalho terá duas cabeças visíveis, como na fase Merkozy. Segundo publica "Le Monde", serão Ramón Fernández, diretor do Tesouro e um sarkozista de origem mexicana, e o secretário de Estado alemão, Thomas Steffen.

Depois de insistir durante semanas em que são os 27 membros da União Europeia e que são as instituições europeias que devem decidir juntos o destino do continente, o discurso dos socialistas franceses remete agora aos estribilhos do antigo regime. "O grupo bilateral se encarregará de refletir sobre a implementação das decisões sobre a Grécia e a Espanha", manifestou-se Moscovici na última segunda-feira, reforçando a imagem excludente do diretório Merkhollande. O objetivo, acrescentou o ministro, é levar a "uma posição comum o Conselho Europeu de 18 e 19 de outubro" e que "França e Alemanha sejam os pilares das reformas estruturais" da zona do euro.

A aliança, na realidade, começou a ser forjada durante a última cúpula de Bruxelas, quando Paris e Berlim decidiram dividir a presidência do Eurogrupo. Se Merkel for reeleita no próximo ano, Schäuble e Moscovici serão os próximos responsáveis pelo fórum de ministros do euro durante os próximos cinco anos. Ambos assumirão o lugar do atual presidente, o luxemburguês Jean-Claude Juncker, quando este se retirar. Schäuble e Moscovici exercerão dois anos e meio cada um.

A um ano das eleições federais alemãs, previstas para setembro de 2013, a impressão palpável em Paris é de que a chanceler aumentou a pressão sobre a frágil França para impor uma solução alemã à crise europeia. Em curto e longo prazo. Parece evidente que Merkel quer reforçar os tratados e a unidade da zona do euro enquanto pilota com mão de ferro a crise grega e espanhola para salvaguardar os interesses dos bancos alemães.

A simbiose vai ganhando corpo e Hollande se expressa com palavras cada vez mais parecidas com as que pronuncia Merkel. Na segunda-feira, falando no Palácio do Eliseu diante de seus embaixadores, indicou que "a vontade francesa é que a Grécia continue no euro" e que "o euro é irreversível", e acrescentou que uma maior "integração solidária" deve levar "à união política" da Europa.

A incógnita passa por saber o efeito que a volta do eixo terá sobre os países apurados pela crise. Até agora, Hollande parecia se comportar diante da chefe alemã como paladino do crescimento, açoite da austeridade e voz da esquerda e do sul. No entanto, hoje dá a impressão de que é mais contrário a defender a Grécia e a Espanha do fundamentalismo do Bundesbank.

Uma razão é que os últimos dados (crescimento zero pelo terceiro trimestre consecutivo e 41.500 desempregados a mais em julho, em um país com cerca de 5 milhões de desempregados ao todo) agravam o panorama francês. Por outro lado, as pesquisas situam o índice de popularidade de Hollande abaixo de 50%.

Outro motivo alegado - como revela o semanário "Le Canard Enchainé" é que seu primeiro-ministro, o germanófilo Jean-Marc Ayrault, teme que um distanciamento da Alemanha seja catastrófico para os interesses de Paris: "Bastaria uma declaração desagradável de um dirigente alemão sobre nossas previsões de crescimento para que a França fosse castigada pelos mercados".

Der Spiegel: China reprime Zhao Zhao, o protegido do artista dissidente Ai Weiwei

Zhao Zhao

A vida dos artistas modernos na China não é fácil. Prisão, multas pesadas e proibição de viagens são apenas algumas das táticas usadas pela polícia estatal para silenciar aqueles que ousam criticar o regime. Mas Zhao Zhao, um artista de Pequim, que já foi assistente do artista Ai Weiwei, recusa-se a ceder diante dessa pressão.

Embora uma entrevista com a mídia ocidental seja algo meio arriscado, Zhao Zhao não hesita nem um segundo sequer em concordar em falar com a reportagem. São 40 minutos de viagem do seu estúdio, em um subúrbio de Pequim, até a galeria do centro da cidade que está expondo o seu trabalho, e ele chega pontualmente.

Passando pela porta moderna de madeira que dá para um pátio idílico em frente à galeria, ele aponta em silêncio para a entrada, e segue na frente com passos rápidos. Zhao não dá a impressão de ser medroso, mas, por ser jovem, ele está com pressa e parece saber bem o que está fazendo. É possível que seja essa autoconfiança que irrite tanto a polícia estatal chinesa.

Zhao, 30, é um dos jovens artistas mais promissores da China. As suas pinturas e esculturas e os seus vídeos dizem respeito às realidades do seu país, além de documentarem a vida dele e dos seus amigos.

Um desses amigos é Ai Weiwei, o artista de fama mundial que no ano passado ficou preso durante dois meses e meio. Zhao trabalhou como assistente dele durante sete anos. Ai, 54, pertence a uma geração de artistas diferente da de Zhao, mas, mesmo assim, os dois têm muita coisa em comum. Ambos cresceram longe de Pequim, já que gerações anteriores das suas famílias foram exiladas nos desertos do noroeste da China. E ambos possuem talento e coragem.

Há muitas indicações de que um dia Zhao será tão famoso quanto o seu mentor. Mas o governo chinês não quer o surgimento de um novo Ai, mais um artista rebelde admirado em todo o mundo. O governo preferiria que o jovem artista Zhao simplesmente desaparecesse e caísse no esquecimento. Zhao não tem medo daqueles que estão no poder, mas aqueles que estão no poder temem Zhao.

Não era arte
Zhao deveria ter feito uma grande exposição no ano passado em Nova York, na galeria de Christophe Mao, um marchand que atua em Pequim e em Nova York. Para Zhao, a mostra teria sido um passo importante para projetar o seu nome internacionalmente. Ele embalou uma grande quantidade dos seus trabalhos para que estes fossem despachados de navio. Porém, a carga jamais deixou o porto de Tianjin, no norte do país. A poderosa polícia alfandegária da China confiscou os trabalhos.

Um dos trabalhos confiscados foi uma escultura feita por Zhao que consiste de uma estátua de concreto fragmentada, uma figura de um enorme policial. O número esculpido no uniforme do policial é a data na qual Ai Weiwei foi preso em 2011. Zhao fez a escultura durante o período em que Ai esteve na prisão, e a construiu desde o início como uma ruína.

Zhao exibiu o seu trabalho publicamente pela primeira vez em outubro de 2011, na galeria de Mao, em Pequim. Na época, as autoridades ainda não pareciam interessadas nele. Foi só em uma exposição posterior que a polícia surgiu na galeria de Mao, poucos dias antes da abertura, e ordenou que a escultura de Zhao fosse removida do grupo de peças à mostra. As autoridades alegaram que aquilo não era arte.

Trabalhando com medo
De pé no pátio da sua galeria, Christophe Mao arranca algumas folhas de uma arvorezinha e dá um sorriso amargo. Mao nasceu na China, mas ele tem cidadania estadunidense. Ele abriu uma galeria de arte chinesa em Nova York em 2000. Mao foi um pioneiro nessa área, e tem tido sucesso. A sua filial em Pequim foi aberta sete anos depois. Mao dá a impressão de ser norte-americano sob diversos aspectos, como por exemplo a roupa esportiva que ele está usando neste dia. Além disso, há o seu jeito autoconfiante meio barulhento e caracterizado por risadas, um certo ar de indiferença e um talento empresarial inquestionável. Entretanto, percebe-se rapidamente que aqui, na China, o país natal dele, Mao não está livre do medo.

Isso é compreensível. Recentemente têm circulado várias histórias sobre a rejeição de pedidos de visto. Mao só viaja a Pequim seis vezes por ano, mas essas viagens são importantes, e ele não deseja correr o risco de perder o seu negócio aqui.

Mao tem se beneficiado da enorme demanda internacional pela arte chinesa nos últimos anos. Em Nova York, ele fica no meio do distrito de artes de Manhattan, e ele ampliou consideravelmente o seu espaço para exposições há três anos. A sua galeria em Pequim é um amplo complexo projetado por Ai Weiwei, e ele é amigo de colecionadores conhecidos como Uli Sigg, ex-embaixador da Suíça na China.

Mao vende trabalhos feitos por artistas que representam a China moderna, que é sem dúvida um país artisticamente exigente. Entre esses artistas há mestres da arte de multimídia. Ele também trabalha com diversos artistas que são estimados pelo Estado. O próprio Mao procura manter um bom relacionamento com o governo chinês. Em 2005, a sua galeria patrocinou o primeiro pavilhão da China na Bienal de Veneza.

Seguindo em frente
Zhao é o artista mais polêmico representado por Mao. O artista é bom para o prestígio de Mao no Ocidente, mas ele poderia também vir a gerar dificuldades para o galerista na China, devido ao atual clima político no país. Mao parece estar nitidamente confuso. O otimismo da época imediatamente anterior à virada do milênio deu lugar ao medo. Ninguém parece saber em que direção o mercado, ou o país como um todo, irá se movimentar.

Zhao diz que, depois que a sua carga de obras de arte foi confiscada, ele foi informado de que teria que pagar uma multa de 300 mil yuans, o equivalente a 38 mil euros (US$ 48 mil). A medida não foi uma punição por crime algum, já que as autoridades simplesmente se recusaram a exportar os trabalhos do artista. É possível que Zhao acabe sendo também acusado de cometer evasão fiscal. As falsas acusações de evasão fiscal são umas das táticas favoritas utilizadas pelas autoridades chinesas, e Ai Weiwei foi acusado de ter cometido esse crime.

Zhao afirma que mais tarde foi informado de que, mesmo após pagar a multa, ele não poderia recuperar as sua obras. Mas ele teria permissão para vê-las uma última vez antes que elas fossem destruídas.

Se Zhao conseguisse fazer aquilo que desejava, ele teria aceitado a oferta e tentado documentar esse encontro com o seu trabalho, com a sua vida artística até o momento. O único problema é que ele não possui os 300 mil yuans para pagar a multa.

Zhao, com o seu cabelo curto e a sua face sincera, diz que está esperando um telefonema das autoridades. Essa não seria a primeira vez. Mas, será que ele tem medo? Não, diz ele, medo não. “Eles não poderiam fazer nada de pior comigo”, explica ele, como se o desejo de que ele desaparecesse não fosse suficientemente ruim. Zhao tem todos os motivos para estar amargurado e nervoso, assim como o galerista Mao, mas ele preferiu seguir em frente com a sua vida.

Situação crítica
Em julho, ele fez uma exposição em uma galeria de Pequim que pertence ao marchand alemão Alexander Ochs. Segundo Ochs, Zhao é tão irredutível quanto Ai Weiwei, “e isso faz dele uma das pessoas que mais correm risco no país”.

Zhao exibiu seis pequenos quadros – pinturas sombrias, melancólicas, quase abstratas, feitas em tonalidades de marrom e preto. Antes da exposição, ele removeu a pintura de todas as paredes internas da sala de exibição e a escureceu completamente. Os visitantes que desejam ver as pinturas de Zhao têm que usar uma lanterna, um isqueiro ou um smartphone para iluminá-las.

Ninguém sabe por que Zhao ainda consegue exibir os seus novos trabalhos de maneira tão oficial, nem mesmo o galerista Ochs. Talvez isso tenha algo a ver com o fato de, ao mesmo tempo, Ochs estar organizando uma exposição sobre o construtivismo europeu para o Museu Nacional de Arte da China, uma exibição politicamente inofensiva que agradou ao governo chinês.

Mas Ochs também passou a questionar se será capaz de reduzir o seu envolvimento com a China. Ele diz ter sido um dos primeiros europeus a investir no cenário de arte contemporânea do país. “E agora, quase 30 anos depois, eu sou obrigado a reconhecer que nós não fomos capazes de criar sequer os menores espaços possíveis de liberdade para os nossos artistas”.

Ele diz que essa situação tornou-se mais crítica nos últimos meses. Ai Weiwei, por exemplo, recebeu a promessa de que o seu passaporte lhe seria devolvido no final de junho, depois de o documento ter sido apreendido pelas autoridades no ano passado. Mas essa promessa não foi cumprida, e Ai está impossibilitado de viajar ao exterior. Esse episódio foi visto no universo artístico de Pequim como um aviso a todos os artistas que criticam o regime. Além disso, existe a multa que está sendo cobrada de Zhao pela destruição dos seus trabalhos. “Esses são métodos que nós conhecemos do fascismo, e eu não concordo com eles”, afirma Ochs.

Intimidação constante
Apesar da queda das vendas, o mercado de obras de arte na China continua sendo enorme. Embora esse mercado pareça estar novamente florescendo, o governo toma todas as precauções para que sob nenhuma circunstância o universo artístico produza vozes críticas.

A legislação tributária da China há muito tempo é opaca, uma zona deliberadamente cinzenta, e atualmente isso está sendo usado como um instrumento para punições arbitrárias e intimidações constantes. Segundo boatos correntes, os membros da polícia estatal chinesa chegam a comparecer às recepções de abertura de exposições de artistas chineses que exibem as suas obras em galerias de Nova York – ou pelo menos, diz Ochs, são esses os rumores que são ouvidos em Pequim.

O setor de comércio de obras de arte sempre foi arriscado. Um transportador alemão de peças de arte está atualmente proibido de deixar a China, e foi informado de que deve se manter disponível para um chamado “questionamento”. Antes disso, ele ficou preso durante quatro meses, também por supostas violações da legislação tributária. Ninguém sabe qual foi o motivo real da prisão.

Zhao Zhao jamais se deixou intimidar. Em 2007, ele fez um vídeo que o mostra caminhando por volta da meia-noite com uma câmera nas mãos. As pessoas o confundem com um agente da polícia secreta e atiram pedras nele. Ele entra em uma delegacia de polícia e, não encontrando ninguém lá, coloca um quepe de policial sobre a cabeça, dizendo, à sua maneira, ao governo chinês como este cria pressões. Ele filmou tudo isso e deu ao trabalho o título “Happening”, embora tudo seja simplesmente a realidade existente no país.

Evitando a cautela
Um dos trabalhos recentes de Zhao é uma pintura fotorrealista inspirada em uma fotografia que Zhao fez para Ai Weiwei dois anos atrás, que mostra o artista com quatro mulheres, todas nuas. O quadro é inofensivo, mas o governo o confiscou por considerá-lo uma provocação, e atualmente Ai está sendo investigado como suspeito de fazer trabalhos pornográficos.

Zhao transformou essa imagem em uma pintura em tela grande. Quando Ochs ofereceu o trabalho para venda em uma feira de arte em Cingapura, nem um só jornal chinês publicou notícias sobre o quadro e a sua história. “No entanto, nós fomos bastante questionados anteriormente”, diz Ochs. “Isso não pode ser coincidência”. Atualmente o quadro pertence a um colecionador europeu.

No momento, Zhao está se preparando para uma exposição em Hong Kong. Ele diz que gostaria de morar lá durante alguns meses, mas que teme não ter permissão para retornar depois a Pequim. “Não sei se eles me deixariam voltar à minha cidade”, afirma o artista.

Na abertura da exposição na galeria de Ochs, Zhao distribuiu CDs no qual ele próprio canta músicas folclóricas chinesas de entonação triste. Mais uma vez, isso consiste em um símbolo. O fato de ser ouvido pode ajudar a protegê-lo. E ele sem dúvida necessitará de tal proteção.

“Eu não quero me tornar cauteloso”, explica Zhao Zhao.

sábado, 1 de setembro de 2012

Polícia Federal usa equipamentos de última geração no combate ao crime


Armas de alta precisão, robôs e roupas especiais, que parecem objetos de ficção, já ajudam a polícia em operações reais.

A tecnologia se tornou fundamental no combate ao crime. Armas de alta precisão, robôs e roupas especiais, que parecem objetos de ficção, já ajudam a polícia em operações reais.

Uma roupa é igualzinha à do filme "Guerra ao Terror", que ganhou o Oscar em 2010, mesma marca e modelo: Eod-9 da americana Med-Eng: considerada a roupa mais segura do mundo, é usada pela Polícia Federal no Brasil.

"O traje antifragmentação, a roupa que a gente vê muito nos filmes, inclusive naquele filme Guerra ao Terror, que ganhou o Oscar, aparece ao longo do filme inteiro, o cara vestido com aquela roupa, é exatamente igual, mesma marca e modelo. Considerada hoje a melhor do mundo. Hoje a gente está preparado, na Polícia Federal, para atender qualquer tipo de ameaça com relação a bombas e explosivos, e até materiais que envolvam agentes químicos e biológicos, radiológicos ou nucleares”, diz o perito criminal federal, Bruno Pitanga.

Para nenhum policial colocar a vida em risco, o grupo antibombas e explosivos da Polícia Federal conta com a ajuda de um robô, que tem um braço mecânico e duas câmeras. O digital Vanguard é comandado à distância por controles tipo joystick e botões que ficam numa maleta, e até anda armado: com um canhão de água que dispara um jato à uma velocidade de mais de mil quilômetros por hora. É como se fosse um tiro e pode matar.

Mas se o robô não estiver disponível, alguém vai ter que ir pessoalmente desarmar a bomba. E aí é que entra uma roupa específica. Ela tem tanta tecnologia de proteção que custa mais de US$ 40 mil e pesa 40 quilos. Dentro dela faz tanto calor que a roupa tem um sistema próprio de refrigeração.

A tecnologia mudou a maneira de combater o crime. Casos de corrupção são desvendados com a ajuda de softwares que buscam, analisam e cruzam milhares de informações de 37 bancos de dados numa velocidade espantosa, apontando as ligações mais importantes de uma quadrilha.
"Nós temos ferramentas robustas de cruzamentos de dados que permitem ao analista enxergar o relacionamento através de visualizações gráficas. Isso no ambiente remoto. Nossos computadores estão na sala cofre, com criptografia, altamente seguro e o policial, de qualquer lugar do mundo, pode acessar essa ferramenta e realizar a sua análise”, conta o chefe de repressão a crimes cibernéticos da PF, Carlos Eduardo Sobral.

No laboratório de análise de imagens do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal se usa tecnologia de ponta, como um scanner, que custa mais de R$ 1 milhão, e que usa raio laser para produzir uma nuvem com milhões de pontos, que depois viram uma imagem em três dimensões de um local. Com a nuvem de pontos que o equipamento produz, é possível fazer uma varredura do ambiente e guardar esses dados.

“Grande parte do desenvolvimento dessa área foi em função de games. O ferramental é o ferramental de jogos mesmo”, fala o perito criminal federal, Daniel França de Melo.

O aparelho já ajudou a resolver vários crimes, como um tiroteio entre policiais à paisana em Pernambuco. Dois policiais federais investigavam um caso e marcaram um encontro com um traficante. A Polícia Civil também investigava e foi até o local. Uma equipe não sabia da outra.
Um policial federal ficou ferido e outro foi morto numa troca de tiros com um policial civil. Era preciso descobrir o que havia acontecido. O scanner mapeou o lugar, e com as imagens feitas por um celular, logo depois do tiroteio e uma foto, foi possível recriar, em dois meses, no computador, tudo o que aconteceu.

"Nós fomos ao local, com o scanner 3D, fizemos várias varreduras. Depois a gente joga num software que faz uma composição, uma junção dessas informações formando uma nuvem de pontos de grandes dimensões”, explica Daniel França.

O material reproduzido em 3D, junto com as informações dos laudos de trajetória das balas no carro e no cadáver, completou o que precisava ser investigado.

“A única posição que a gente achou compatível com os indícios, com os vestígios, foi a posição, do policial federal saindo do veículo já na iminência de reagir. Com isso a gente conseguiu terminar. A arma passou pelo pulso, cortou o pulso e entrou no peito dele”, explica Daniel.

Em outro caso, os agentes recriaram a rua de uma favela no Rio de Janeiro, onde aconteceu um tiroteio. A pedido do Ministério Público, para ajudar a resolver o caso na justiça, a polícia conseguiu mostrar onde estavam os traficantes. "Eles ficavam posicionados em um muro que se encontra ao fim da rua, que é um muro de arrimo, que tem acima dele um ponto de observação do tráfico”, conta Daniel.

O programa foi capaz de mostrar inclusive o ponto de vista dos traficantes e reproduzir até as pichações e as árvores que existem no local.

Para enfrentar situações extremas em operações de rua, a Polícia Federal tem um fuzil de precisão, usada apenas pelos atiradores mais bem treinados do Comando de Operações Táticas, a tropa de elite da Polícia Federal.
Ela foi feita com o que existe de mais avançado hoje em tecnologia de armamento. Com ela, acertar o alvo milimetricamente fica mais fácil. Mesmo à 100 metros de distância. Na hora de invadir uma casa para prender alguém, a tecnologia ajuda muito. Com o visor termal é possível visualizar na escuridão, tudo que emite calor. A pessoa pode estar disfarçada, no meio do mato, que o equipamento consegue encontrar.