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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sistema de fronteiras pode envolver R$ 12 bi


Com grande extensão territorial, o Brasil tem o desafio de monitorar permanentemente suas fronteiras terrestres, que se estendem por 17 mil quilômetros ao longo de dez países, 11 Estados e 588 municípios brasileiros. Para melhorar o controle atual, o governo e as Forças Armadas trabalham para implementar gradualmente o Sistema de Monitoramento das Fronteiras (SisFron), um projeto que poderá envolver R$ 12 bilhões em investimentos. O período de implantação previsto é de dez anos.

Do total, R$ 5,930 bilhões serão destinados para a infraestrutura tecnológica, cerca de R$ 3 bilhões para infraestrutura de obras civis e R$ 3 bilhões para infraestrutura de apoio à atuação operacional. "Esses valores, contudo, poderão ser modificados, em função da revisão do projeto básico, que está sendo realizada pelo Centro de Comando e pela Atech ", afirma o general José Roberto de Oliveira, assessor especial do comandante do Exército para o projeto. "Também está sendo estudada a criação da figura de integradora do projeto."

A expectativa é que até o fim de março o plano possa ser submetido à aprovação. A partir daí pode ter início a licitação para aquisição de bens e equipamentos do projeto piloto do SisFron. A área de operação é na região de Dourados, numa faixa de fronteira no Mato Grosso do Sul onde está sediada a quarta brigada de cavalaria mecanizada. "Esse processo de aquisição se desenvolverá neste ano e, se necessário, será complementado em 2013. Ainda em 2013 está prevista para ser realizada a experimentação técnica do sistema instalado, para os eventuais ajustes, a fim de proporcionar condições de iniciar a implantação nas áreas dos Comandos Militares da Amazônia e do Sul, nos anos de 2014 e 2015", informa o general.

Uma das prioridades do SisFron será a melhoria do monitoramento da Amazônia. "Teremos melhor captação de imagens por satélites, uma rede de sensores, radares de vigilância e visores óticos com tecnologia de ponta", afirma. Isso permitirá monitorar melhor as fronteiras, fazer mais ações repressivas em conjunto com outros órgãos, como a Polícia Federal, e atender com maior eficácia até em ocorrência de queimadas. Os produtos e serviços necessários à implantação são diversificados e compreendem: sensores, sistemas de comunicações (satélites, inclusive); de apoio à decisão; recursos de defesa cibernética e sistemas de apoio à atuação operacional.

O financiamento do projeto poderá ser feito com recursos do Orçamento Geral da União (OGU), crédito do BNDES ou operação de crédito externo. O SisFron está incluído no Plano Plurianual (PPA) 2012-2015. A licitação do sistema é vista como uma oportunidade para capacitar a indústria nacional e incentivar a fabricação de algumas peças e equipamentos. "Muitas das tecnologias vêm de fora, apesar de alguns equipamentos serem produzidos localmente, mas esperamos que o capital externo possa se associar às empresas brasileiras, até pela transferência de tecnologia", afirma Oliveira.

Tomando-se como base um valor de R$ 40 bilhões anuais, correspondente somente ao custo anual da violência decorrente do narcotráfico proveniente das fronteiras terrestres, uma efetividade mínima do SisFron, de apenas de 2,97%, garantiria o retorno do investimento antes mesmo da total implantação do sistema.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Irã possui “know-How” para a fabricação de motores turbofan

Acima uma ilustração detalhada do motor F-100-PW-220/F100-PW-220E; O motor fabricado pela americana Pratt & Whitney é usado em caças como F-15 Eagle, F-15E Strike Eagle, F-16 Fighting Falcon e no UAV Northrop Grumman X-47B

A agência estatal chinesa de notícias “Xinhua”, em uma reportagem no último sábado (25) afirmou que autoridades iranianas anunciaram que Teerã possui o know-how tecnológico para a fabricação de motores turbofan.

O turbofan é um tipo de motor a jato utilizando na propulsão de aeronaves.

Segundo a agência de notícias chinesa, o Irã deu “passos importantes” em direção ao projeto de motores turbofan de grande porte.

A reportagem surge após o vice-chefe da Aviation Industries Organization (IAIO), o brigadeiro-general Abdolkarim Banitarafi, dizer o Irã possui know-how para projetar e construir motores turbofan pequenos para serem usados em vários tipos de veículos aéreos não-tripulados (UAV).

“Hoje, nós estamos construindo motores turbofan para uma grande variedade de UAVs”, disse Banitarafi na última sexta-feira (24) ao canal iraniano PRESS TV.

Banitarafi disse que a construção de motores turbofan é um passo significativo para a construção de UAV nacionais e acrescentou que o Irã também teve “grandes avanços” na projeção de motores turbofan de grande porte.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ex-ministro da Defesa apóia modelo comum de Defesa para a América do Sul


Nelson Jobim

O ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, defendeu nesta quinta-feira, 23, um modelo comum para a Defesa Sul-Americana. Ele destacou o lugar estratégico que ocupa a América do Sul como fonte de recursos naturais para justificar a importância de uma política de defesa continental.

Jobim foi ministro da Defesa entre 2007 e 2011 e deixou o governo após divergências com a presidente Dilma Rousseff.

Nelson Jobim lembrou que apesar dos cortes no Orçamento, os grandes projetos das Forças Armadas continuam em curso.

Na sua avaliação, apenas a decisão sobre a compra de caças para a FAB gera alguma preocupação.

A fabricação de submarinos e de blindados, por exemplo, estão mantidas.

O ex-ministro também acredita que o reforço de militares na Amazônia deverá ser concluído até 2013 e destacou a importância do Plano Estratégico de Fronteiras que é implementado por vários ministérios.

Atualmente, 12 mil homens protegem a extensa fronteira brasileira com dez países.


Conselho de Defesa
Na avaliação do ex-ministro da Defesa, o Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), vinculado a UNASUL, deve funcionar como um fórum de discussões sobre a gestão da defesa do subcontinente.

Para Jobim, isso é absolutamente necessário considerando-se os recursos naturais existentes: energia, poços de petróleo e minas, capacidade produtiva e reservas de água potável.

Ele acredita que o CDS deva avançar no desenho de uma política de defesa para todo o continente, respeitando-se as peculiaridades de cada país. Além disso, a região seria mais forte se atuasse em conjunto nos foros internacionais.

Nelson Jobim destacou a Estratégia Nacional de Defesa (END) como a medida mais importante de sua gestão. A END tem por objetivo reorganizar as Forças Armadas e reestruturar a indústria bélica.

Decisão francesa que condena negação de genocídio armênio causa polêmica

O premiê turco, Recep Tayyp Erdogan, chamou França de "racista" por aprovar lei que condena genocídio armênio 

A decisão do Senado francês de aprovar um projeto de lei que ameaça as pessoas que negam o genocídio na Armênia com uma multa de 45 mil euros ou um ano de prisão, ou ambos, é politicamente inepta e eticamente questionável. Apesar do Conselho Constitucional da França ainda não ter decidido sobre a constitucionalidade da lei, não é cedo demais para condenar a limitação que ela impõe à liberdade de expressão.

Nenhum acadêmico sério pode negar as perdas terríveis sofridas pelos armênios durante o genocídio de 1915, após o massacre sistemático de dezenas de milhares deles por todo o leste da Anatólia nos anos 1890. Mas não cabe a um corpo legislativo prescrever qual é a postura politicamente correta em relação ao derramamento de sangue armênio, muito menos impor pena de prisão e/ou uma multa pesada por uma opinião contrária.

Neste sentido, a posição do Parlamento francês é tão louvável quanto a das autoridades turcas, para as quais referências ao genocídio armênio são vistas como um insulto à “turcalidade” e portanto devem ser tratadas como crime, segundo a seção 301 do código penal turco. Afirmar a realidade do genocídio armênio é tão arriscado em Istambul quanto contestá-la em Paris.

Estranhamente, a França não prevê penas semelhantes para a negação de outros casos de genocídio. Ao se concentrar no genocídio armênio e deixar de fora vários outros casos de assassinato em massa, alguém poderia concluir que nem a morte de meio milhão de assírios, nem a de dezenas de milhares de gregos pônticos, durante e depois da Primeira Guerra Mundial, se enquadram como genocídios. O que, na prática, é outra forma de negação.

Não há lógica nisso. Nem a escala maior da carnificina armênia (1,5 milhão) em comparação a de outras comunidades cristãs, nem as tentativas de ressaltar suas circunstâncias particulares, são explicações plausíveis. Um estudo meticuloso da tragédia assíria por Hannibal Travis não deixa dúvida sobre a natureza genocida daquelas mortes. O mesmo poderia ser dito sobre o extermínio deliberado das comunidades gregas.

Estaria a chave para o enigma político no apoio eleitoral potencial de meio milhão de cidadãos franceses de origem armênia? O preço dessa legislação equivocada, que varia do cancelamento de contratos econômicos até a suspensão da cooperação militar e irritações diplomáticas, ultrapassa em muito os ganhos.

Esta mais recente tentativa de brandir sanções legais contra os negadores está de acordo com uma tradição bem estabelecida. Nenhum país, até onde estou ciente, aprovou tantas leis que visam regulamentar a memória coletiva da nação, uma tendência que começou com a Lei Gayssot, de julho de 1990, que torna crime a negação do Holocausto.

Desde a aprovação em 2001 de uma lei que reconhece publicamente o genocídio armênio, os legisladores franceses têm aumentado a pressão sobre a Turquia, primeiro com a lei de 2006, que estipula pena de um ano de prisão para qualquer um que questionar a propriedade do termo genocídio para descrever o massacre de armênios, e agora com sanções ainda mais duras. Não causa espanto que o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tenha respondido com uma raiva nada velada ao que percebeu como sendo outra afronta.

Também não causa surpresa que a legislação de censura da França tenha provocado fortes críticas por parte dos historiadores. O estopim ocorreu há poucos anos, quando o Parlamento emitiu diretrizes sobre como ensinar a história colonial. Pierre Nora, um proeminente historiador e membro da Academia Francesa, reagiu à lei de fevereiro de 2005 (posteriormente derrubada), que intimava os professores a “reconhecerem em particular o papel positivo da presença francesa no exterior, notadamente no Norte da África”, desta forma: “Não é papel do legislador arbitrar sobre as alegações divergentes das vítimas. Por que não aprovar leis sobre o massacre contra os cátaros, os horrores das guerras religiosas ou do Terror? Este é um processo interminável, porque a história é repleta de crimes contra a humanidade”.

Nora não poupou “certos defensores da memória”, por sua “tendência de impor uma memória tirânica, às vezes terrorista, como se fossem a comunidade científica”, e pelos autonomeados guardiões da ortodoxia da memória, “tornando refém a pesquisa histórica”.

Alguém se perguntaria se negadores conhecidos do Holocausto armênio, como Bernard Lewis, nos Estados Unidos, e Gilles Veinstein, na França, ambos autoridades reconhecidas em história otomana, seriam processados retroativamente. Lewis já expressou publicamente fortes dúvidas sobre atribuir o rótulo de genocídio ao assassinato de armênios. Veinstein adotou uma posição mais cheia de nuance: apesar de questionar a propriedade do termo genocídio, ele não questiona que o assassinato de armênios se qualificaria como “crime contra a humanidade”.

Em sua excelente discussão sobre os estragos do “negacionismo” em algumas das áreas de maior prestígio do mundo acadêmico francês, Yves Ternon, um estudioso de genocídio, fez a festa destruindo os argumentos apresentados pelos dois negadores. Enquanto refutava seus argumentos, Ternon também expôs de forma reveladora as realidades sombrias da tragédia armênia.

Se o negacionismo tem algum mérito, é o de convidar sua própria demolição. Fora os custos pesados de sua decisão, essa verdade ainda precisa penetrar na consciência dos legisladores franceses.

"A busca por uma solução de dois Estados é uma fantasia", diz palestino sobre conflito no Oriente Médio

O proeminente filósofo palestino Sari Nusseibeh acredita que é tarde demais para uma solução de dois Estados para o conflito no Oriente Médio. Em uma entrevista para a “Spiegel”, ele expõe sua visão para uma confederação israelense-palestina e por que desconfia da nova posição moderada adotada pelo grupo militante islâmico Hamas.

Sari Nusseibeh


Spiegel: Sr. Nusseibeh, em seu novo livro o senhor alega que é tarde demais para um Estado palestino. Por quê?
Nusseibeh: Vocês estão sentados em meu escritório em Beit Hanina, em um lugar chamado Jerusalém Oriental. Se vocês olharem para oeste daqui, verão partes deste bairro árabe que estão separadas de nós. Se olharem lá para o leste, verão Pisgat Zeev, um enorme assentamento israelense que faz parte de Jerusalém. Mais além há Maale Adumim, um assentamento ainda maior de israelenses no que é chamado de Jerusalém Oriental. Não há mais Jerusalém Oriental. Jerusalém Oriental já se tornou um termo impróprio. Mas um Estado palestino sem Jerusalém Oriental como sua capital é inaceitável.

Spiegel: O senhor deseja desistir das fronteiras de 1967, que foram a base de todos os planos de paz?
Nusseibeh: É extremamente difícil até mesmo para o mais criativo entre nós conseguir redesenhar o mapa para nos dar, os palestinos, Jerusalém Oriental como capital. Além disso, há os colonos israelenses. É possível remover meio milhão de pessoas? Não, não é. Nada é impossível, matematicamente falando. Mas nós estamos falando sobre política, e na política nem tudo é possível.

Spiegel: Então devemos admitir que a solução de dois Estados está morta?
Nusseibeh: Matematicamente falando, uma solução de dois Estados é uma solução excelente. Ela causa dor mínima e é aceita por uma maioria em ambos os lados. Por causa disso, nós deveríamos tê-la adotado há muito tempo. Mas não o fizemos.

Spiegel: E de quem é a culpa por isso? 
Nusseibeh: Primeiro, Israel demorou demais para aceitar a existência de um povo palestino. Nós, palestinos, demoramos demais para aceitar que deveríamos reconhecer Israel como um Estado. O problema é que a história anda mais rapidamente do que as ideias. Quando o mundo acordou para o fato de que a solução de dois Estados era a melhor solução, nós já tínhamos centenas de milhares de israelenses vivendo além da Linha Verde (nota do editor: a Linha de Armistício de 1949, que forma a fronteira entre Israel e a Cisjordânia). Há um crescente fanatismo em ambos os lados. Hoje, a busca de uma solução de dois Estados parece buscar algo dentro de uma bolha de fantasia.

Spiegel: E quais são as alternativas? 
Nusseibeh: A forma política final não importa muito. O importante é que ambos os lados possam concordar a respeito e que os princípios básicos de igualdade e liberdade sejam mantidos. Eles podem ser mantidos no contexto de um Estado, de dois Estados, de três Estados, ou no contexto de uma federação ou confederação de Estados.

Spiegel: Em seu livro o senhor propõe que, em um único Estado conjunto, os palestinos devem ter direitos civis, mas não direitos políticos. “Os judeus podem administrar o país, enquanto os árabes poderiam ao menos desfrutar viver nele”, o senhor escreve. Isso funcionaria? 
Nusseibeh: Sim, como uma transição. Desde o início da ocupação, nos tem sido negados direitos civis básicos, sob a promessa de que uma solução ou Estado estava chegando. Isso nos foi prometido por 20 anos. Mas eles não deveriam manter os palestinos vivendo no porão até uma solução ser encontrada. Eu sugiro que nos deem direitos básicos, nos permitam liberdade de movimento, nos permitam viver e trabalhar onde quisermos, nos permitam respirar.

Spiegel: Onde o senhor deseja traçar as fronteiras? Segundo linhas étnicas? 
Nusseibeh: Sim, eu proponho uma federação entre Israel e um Estado palestino baseada no posicionamento demográfico da população no país.


Spiegel: E o senhor acha que os israelenses aceitariam isso?
Nusseibeh: Sim, eles adorariam. Os israelenses que desejam um Estado predominantemente judeu poderiam muito bem considerar esta uma solução razoável, porque mesmo se de alguma forma conseguissem se livrar dos árabes na Cisjordânia e em Gaza, que eles consideram um fardo demográfico, eles ainda sentem que têm um problema a longo prazo com os árabes em Israel. O que estou sugerindo não é totalmente insano. Essa ideia sempre esteve presente. Se vocês voltarem na história judaica, vocês encontrarão israelenses a sugerindo desde o início, como (o proeminente sionista intelectual e cultural) Martin Buber.

Spiegel: Qual seria o benefício para os palestinos em uma federação com Israel? 
Nusseibeh: Eles teriam liberdade de movimento – eles poderiam se estabelecer e trabalhar onde quisessem. Esse é um benefício imenso. E mais do que isso: segundo a solução clássica de dois Estados, não há retorno dos refugiados (palestinos) para Israel, apenas para a Cisjordânia ou Gaza. Mas em um futuro mapa traçado da forma como estou propondo, partes do que atualmente é Israel poderiam se tornar parte de um Estado palestino. E, portanto, muitos refugiados poderiam voltar exatamente para suas cidades de origem.

Spiegel: Em seu livro, o senhor descreve sua proposta como uma “terapia de choque para acordar os israelenses” e levá-los a encontrar uma solução. Isso significa que, no final, o senhor realmente não acredita no que está dizendo?
Nusseibeh: Pode ser ambos. Pode ser um alerta, um despertar. Eu quero que os israelenses vejam que eles têm um problema e que pensem: talvez devêssemos buscar a solução de dois Estados. Mas pode ser um sinal do que está por vir. Se não fizermos nada, futuramente as pessoas acordariam e descobririam que estão vivendo em uma espécie de confederação.

Spiegel: O senhor acredita que as coisas estão se movendo nessa direção por conta própria? 
Nusseibeh: Exatamente. Nós estamos constantemente deslizando nessa direção. Vejam as negociações. Elas apenas andam em círculos.

Spiegel: Em seu livro, o senhor descreve o processo de paz entre israelenses e palestinos mais ou menos como um jogo, “para ser jogado pelo tempo mais longo possível”. O senhor acredita que as negociações devem ser interrompidas?
Nusseibeh: Eu realmente não me importo se os negociadores de ambos os lados quiserem prosseguir conversando em Amã (a capital da Jordânia), como fizeram recentemente. Eles podem passar 48 horas conversando. Mas eu acredito que não chegarão a lugar nenhum. Eles só chegarão a algum lugar se apenas desistirem de tentar ser espertos uns com os outros. (O primeiro-ministro de Israel, Benjamin) Netanyahu é um bom vendedor, mas não me parece uma pessoa sábia.


Spiegel: E quanto ao presidente palestino, Mahmoud Abbas?
Nusseibeh: Bem, permita-me dizer: eu acho que é preciso ser previdente e se importar o suficiente.

Spiegel: A Autoridade Palestina (AP) deveria se dissolver em vez de continuar a administrar a ocupação?
Nusseibeh: Não, isso seria arriscado demais. Pelo contrário, a PA deve ser fortalecida, receber mais território e mais autoridade. E acho que a comunidade internacional deveria continuar a apoiá-la.

Spiegel: Isso poderia mudar rapidamente se o Hamas, o grupo militante islâmico que controla a Faixa de Gaza, e o movimento rival Fatah de Abbas, que controla a Cisjordânia, formarem um governo conjunto. O senhor acredita que a reconciliação deles funcionará?
Nusseibeh: É natural que o Hamas e o Fatah não lutem um contra o outro. Mas não brigar não significa automaticamente concordar. No momento, parece que eles estão tentando conciliar os pontos em desacordo. E eu não gosto disso. Eu acho que as pessoas devem ser claras a respeito de suas posições. E eu não sei ao certo o que Khaled Mashaal (nota do editor: o líder do Hamas em exílio) quer, para dizer a verdade.

Spiegel: Khaled Mashaal disse recentemente que o Hamas deve se concentrar em uma resistência não violenta. O senhor acredita nele? 
Nusseibeh: Eu me recordo de uma situação com ele, talvez há dez anos. Foi no auge da segunda intifada, e foi a primeira vez em que fui convidado para comentar na “Al Jazeera”. Eu tentei explicar por que ataques suicidas não eram bons, de que eles não conseguiriam nada. Eu inicialmente não percebi que Mashaal estava do outro lado. Ele respondeu que eu estava falando tolices e que os ataques suicidas eram ótimos, que atirar e matar era ótimo. Esse é o motivo para ficar irritado quando o ouço agora dizendo que deseja uma resistência civil. Por que está optando por isso agora, após 10 anos nos arruinando? Todo o muro (nota do editor: a barreira da Cisjordânia) não teria sido construído. As coisas seriam muito diferentes hoje.

Spiegel: O senhor acredita que haverá eleições na Cisjordânia e em Gaza em breve?
Nusseibeh: Eu não acho que eleições possam acontecer tão cedo. E para dizer a verdade, eu não sei ao certo se sou favorável a eleições no contexto atual. Eleições são uma coisa boa em certas circunstâncias, por exemplo, quando seu país é livre e as pessoas que você elege podem tomar as decisões a seu favor. Mas em nosso caso isso é uma fantasia. O que as pessoas que elegemos fizeram por nós? Nada. Se o próprio Abu Mazen (Mahmoud Abbas), o presidente deste país, quiser ir de um lugar para outro, ele precisa obter uma permissão.

Spiegel: Como poderia funcionar o tipo de federação que o senhor está propondo, se ao mesmo tempo a maioria dos palestinos votou no Hamas, cuja meta declarada é um Estado religioso?
Nusseibeh: Se você olhar para Gaza de cima a baixo, você vê o Hamas. Eu não vejo o Hamas em Gaza, pessoalmente. Eu vejo seres humanos normais: meus parentes, meus amigos, meus alunos. Eles não votaram no Hamas porque repentinamente acordaram e se transformaram em muçulmanos extremistas. Não, eles votaram no Hamas porque o processo de paz fracassou. Se o governo israelense abrisse hoje as fronteiras, o Hamas ficaria no caminho? E se ficasse no caminho, as pessoas dariam ouvido ao Hamas? Não, eu acredito que não. As pessoas querem vidas normais.

Spiegel: Nós estamos sentados aqui no campus da Universidade Al Quds. O que seus estudantes pensam a respeito de política –eles tendem a apoiar o Hamas ou o Fatah?
Nusseibeh: Os estudantes no campus são seres humanos individuais; eles não são ideologias ambulantes. Permitam-me contar uma história. Foi em 2003, quando os israelenses queriam construir o muro de separação, bem no meio de nosso campus. O que ocorreu imediatamente aos estudantes foi –e isso independia de serem a favor do Hamas, Fatah ou da Jihad Islâmica– vamos até lá atirar pedras contra os soldados israelenses. Mas eu lhes disse: ouçam, se fizerem isso, então um de vocês será morto. A universidade terá um mártir, mas será fechada no dia seguinte. E então permaneceram não violentos. No final, nós vencemos. Israel não construiu o muro no campus. O que quero dizer com esta história? Independente de como vocês os veem, independente da ideologia deles, os seres humanos são pessoas razoáveis.

Spiegel: Seus alunos ainda acreditam que este conflito pode ser resolvido? E o que pensam a respeito de uma federação entre Israel e Palestina?
Nusseibeh: Primeiro, eles acreditam que não há solução. Mas o que posso dizer é que as pessoas não têm mais convicção na ideia de dois Estados. Apenas alguns poucos ainda estão presos na ideia de identidade nacional, mas eles não acreditam que conseguirão o Estado que desejam. Outras pessoas estão se voltando para a religião. Ideias religiosas são o que importa agora.

Spiegel: O senhor é um professor de filosofia islâmica. O que o senhor pensa a respeito do papel da religião neste conflito?
Nusseibeh: Eu cresci com a ideia de um Islã muito tolerante. Minha família teve as chaves da Igreja do Santo Sepulcro (na Cidade Velha de Jerusalém) por centenas de anos e temos orgulho disso. Essa é nossa ligação com o cristianismo. Nossa reverência por Jesus é algo inerente em mim como muçulmano. Minha reverência pelos profetas judeus é inerente em mim como muçulmano.

Spiegel: Mas esse não é o Islã reverenciado por todos os muçulmanos.
Nusseibeh: No sentido verdadeiro, as religiões são na teoria formas de apoiar os valores humanos. Na medida em que as religiões passam a interferir no valores humanos, então elas se desviam na direção errada. E, infelizmente, é isso o que está acontecendo em muitas religiões, incluindo o Islã. Há alguns clérigos islâmicos de que gosto, mas eu desconfio de pessoas que se consideram guardiãs da religião.

Spiegel: O senhor frequenta a mesquita regularmente?
Nusseibeh: Não, eu quase nunca vou. Certa vez eu levei meus filhos à mesquita, mas o homem que conduzia a oração me fez ir embora. Ele falava sobre coisas totalmente insanas. Mesmo se você ignorar o conteúdo, é a forma como eles gritam. Você sente como se eles estivessem segurando um chicote e assustando as pessoas a aceitarem a verdade do Islã. Isso não é o Islã. Isso é meio que terrorismo. No meu entender, o Islã é uma religião dócil. E a mensagem do Islã é uma mensagem dócil.

Spiegel: O conflito entre israelenses e palestinos realmente parece menor em comparação a uma possível guerra com o Irã. O que acontecerá se Israel atacar o Irã?
Nusseibeh: Isso seria um grande erro. Tudo o que Israel faz para se afirmar por meio do uso de mais força é um passo para sua própria destruição. Há o ditado: “Aqueles que vivem pela espada morrerão pela espada”.

Spiegel: Uma escalada militar com o Irã poderia pressionar israelenses e palestinos a finalmente chegarem a uma solução?
Nusseibeh: Israel não nos leva a sério no momento. Eles nos manterão sob a tampa por um longo período. Se atacarem o Irã, eu não acho que isso os deixaria mais abertos em relação a nós. Eu certamente acredito que não nos deixaria mais abertos em relação a eles. E, sem dúvida, eu não acho que o mundo árabe estaria mais aberto em relação a eles.

Spiegel: Isso soa como um cenário bastante sombrio.
Nusseibeh: É o motivo para estar propondo este plano. Quantas pessoas vivem entre a Jordânia e o Mediterrâneo?

Spiegel: Aproximadamente 11 milhões.
Nusseibeh: Há cerca de 4 milhões de palestinos na Cisjordânia e Gaza, e 1 milhão em Israel, e há aproximadamente 6 milhões de judeus israelenses. Mas este é um lugar pequeno. Nós estamos dentro um do outro. Cedo ou tarde, nós teremos que encontrar um modo de convivermos uns com os outros. Meu filho vive em um subúrbio judeu de Jerusalém. Minha nora disse à professora de música judia que não quer que o filho dela cante canções religiosas judaicas. E a professora judia disse que tudo bem –quando fizermos isso, ele não precisa participar. Mas, fora isso, ele pode participar da festa.

Spiegel: É assim que seu Estado proposto poderia funcionar? Quando for uma questão judaica, então os palestinos ficariam de lado, mas, fora isso, participariam?
Nusseibeh: E vice-versa, porque não se pode esperar que os judeus apreciem canções palestinas. Mas convenhamos, muçulmanos e judeus conviveram amigavelmente por longos períodos de tempo. Nem tudo foi um mar de rosas, mas na verdade foi melhor do que na Europa por grande parte do tempo. Nós temos amizades entre judeus e árabes que são muito fortes e às vezes remontam gerações. Não é impossível.

Spiegel: Sr. Nusseibeh, obrigado pela entrevista.

Para Brasil, ataque ao Irã fere as leis internacionais


Patriota diz que ofensiva militar exacerbaria as tensões no Oriente Médio


Brasileiro fala em entrevista ao site Yahoo News; ele diz ter feito o alerta a Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU

Antonio Patriota, ministro brasileiro das Relações Exteriores, afirmou em entrevista ao site Yahoo News que a comunidade internacional deve proceder "com o máximo de cautela" em relação ao Irã.

Ele disse ter feito alerta a Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, pedindo-lhe que considere os aspectos legais envolvidos na possível intervenção militar no país persa.

"Sem dúvidas, adicionar mais um foco de ação militar em uma região volátil irá exacerbar enormemente as tensões", afirmou Patriota.

Para o diplomata, ainda que às vezes se use a expressão que diz que "todas as opções estão sobre a mesa", "algumas iniciativas são contrárias à lei internacional".

Em relação à Síria, Patriota defendeu que medidas diplomáticas e humanitárias têm de ser experimentadas antes do prospecto de uma intervenção militar a exemplo da executada na Líbia.

O Brasil, que vem defendendo a retórica da "responsabilidade ao proteger", votou a favor da condenação da Síria na Assembleia-Geral da ONU, no início do mês, devido à repressão oficial contra a população civil.

ISRAEL
EUA, Reino Unido e Rússia têm pedido a Israel, tanto em público quanto em particular, que não ataque as instalações nucleares iranianas.

Rumores de uma ofensiva aumentaram recentemente.

Anteontem, o Irã acusou Israel no Conselho de Segurança da ONU de levar a cabo um "jogo bélico" ao matar cientistas ligados ao enriquecimento de urânio no país.

Moisés Naím: Bashar Assad: e agora, o que fazer?


As opções que o ditador sírio tem são apenas três: continuar matando, negociar, ir para o exílio

ENQUANTO VOCÊ lê esta coluna, ministros de 80 países estão reunidos hoje em Túnis procurando a maneira de tirar Bashar Assad do poder na Síria e impedir que ele continue a assassinar civis inocentes.

As opções não são muitas. Contudo, embora se discuta muito sobre as opções abertas para o resto do mundo em relação à Síria, tem se falado menos sobre as alternativas que restam para Assad. São três.

1. Continuar matando os insurretos e suas famílias. Foi o que Gaddafi tentou fazer, até que a Otan o impediu. Mas o líder sírio sabe que as potências ocidentais não vão travar uma guerra contra seu país, como fizeram na Líbia.

Também sabe que não pode sustentar a repressão indefinidamente, que países demais estão armando e apoiando os insurretos, cujo número aumenta diariamente, e que uma facção importante de suas Forças Armadas pode se rebelar a qualquer momento. China e Rússia, também. Matar não basta. E, se ele continuar nesse caminho, terminará como Gaddafi.

2. Negociar. O problema é com quem negociar. A oposição é uma amálgama de muitos grupos não coordenados. A outra alternativa é negociar com os estrangeiros: ONU, Liga Árabe, outros... Em troca da mediação internacional (envio de capacetes azuis?), Assad poderia prometer ceder o poder parcialmente.

Mas os estrangeiros vão lhe exigir garantias fortes. Além disso, Assad sabe que entregar um pouco de poder pode levá-lo a perder o poder por inteiro (ver o caso de Mubarak, Hosni). A recusa obstinada de Gaddafi em fazer concessões se baseou nessa convicção em relação ao poder. Mas ao final, quando já era tarde demais, Gaddafi e seus filhos tentaram desesperadamente fazer concessões e conseguir uma trégua.

A lição da Líbia é que é preciso negociar antes de ser derrotado. A lição do Egito, Tunísia e Iêmen é que, nos regimes autoritários, não é possível dividir o poder "um pouco". É tudo ou nada.

3. O exílio. Mas para onde ir? Na Europa, o aguardam o Tribunal Penal Internacional e outros organismos que documentaram as atrocidades. O Irã é outra possibilidade, como podem sê-lo a China ou a Rússia. A dificuldade é decidir quem mais incluir no avião ao exílio.

O irmão do presidente dirige a máquina repressora do regime e sua irmã é apontada como aguerrida defensora da linha dura. E depois vêm os generais, os chefes dos órgãos de segurança, os sócios e outros colaboradores próximos.

E as famílias destes. De fato, diante da possibilidade de que o presidente se decida pelo exílio, seus parentes e seguidores próximos criaram uma rede eficaz que lhe torna difícil viajar.

O fim da sangrenta dinastia síria se aproxima, mas ninguém sabe se chegará em questão de dias, semanas ou meses. Como vemos, as opções que restam para Bashar Assad são poucas e muito ruins.

Embora seja verdade que os grandes líderes conseguem abrir novos caminhos em direção a saídas que ninguém mais tinha imaginado, também é fato que Bashar Assad não é um grande líder.

É um assassino.