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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Folha de S. Paulo: "Pai" da ação contra Bin Laden prega velocidade

Em livro, William McRaven lista as regras do sucesso de uma missão

Almirante é o único que teve nome divulgado da equipe dos EUA que matou o terrorista em operação no Paquistão

Vice-almirante William H. McRaven
Um pequeno grupo de militares, altamente treinados, pode derrotar um inimigo até dez vezes mais numeroso e mais bem protegido se seguir seis regras básica.

Essa é a teoria apresentada no livro do almirante americano que ganhou fama mundial instantânea após planejar e preparar a operação que matou o líder terrorista Osama bin Laden em 1º de maio. William McRaven, 55, é o único nome conhecido da equipe que matou Bin Laden.

Os militares do Time Seis do Seal (mergulhadores de elite da Marinha dos EUA) que atuaram na operação trabalham diretamente com a CIA (agência de inteligência americana), e suas identidades são sigilosas.

O livro "Spec Ops" (spec ops: estudos de caso em guerra de operações especiais -teoria e prática, da editora Ballantine Book) foi lançado em 1995 por McRaven, que já foi um Seal.

Quando planejou o ataque ao esconderijo de Bin Laden no Paquistão, ele estava no comando do grupo JSOC (sigla em inglês para Comando Conjunto de Operações Especiais), sediado no Afeganistão e formado pelos militares das principais forças especiais dos EUA (Seals, Rangers e Deltas, entre outros).

Superioridade
McRaven baseia seu livro no conceito de "superioridade relativa" de Carl von Clausewitz, o criador da teoria militar moderna. Trata-se da habilidade de um comandante de concentrar suas forças no ponto decisivo da batalha para conseguir a vitória, mesmo que o inimigo seja mais numeroso e armado.

Foi o que aconteceu no Paquistão, quando 79 Seals invadiram um país soberano para matar Bin Laden, sob o risco constante de entrar em combate com o Exército paquistanês do norte -cuja academia fica a dez minutos do local do esconderijo.

Outro exemplo, este analisado no livro, aconteceu em 1976, quando 180 comandos israelenses invadiram o aeroporto de Entebbe (Uganda) e resgataram cerca de 90 reféns das mãos de extremistas e do Exército nacional.

Velocidade
Para McRaven, a operação especial deve contar com recursos ilimitados, providos pelo governo, e informações (sobre a localização e defesas do inimigo) fornecidas por todas as agências de inteligência do Estado.

Os alvos devem ser poucos, e a tecnologia envolvida, totalmente nova -como na morte de Bin Laden, quando os Seals usaram helicópteros invisíveis a radar, de configuração ainda desconhecida, para entrar no Paquistão sem alertar suas Forças Armadas.

A essência do sucesso recai, porém, na velocidade. Os militares têm que ser capazes de chegar de surpresa e cumprir seu objetivo principal em poucos minutos (os israelenses levaram três minutos para proteger os reféns; os Seals, após um acidente com um helicóptero, mataram Bin Laden em 15 minutos).

Chegar rápido ao objetivo principal é o mesmo que atingir a "superioridade relativa". Nesse ponto da batalha, o inimigo não tem mais tempo nem condições de contra-atacar de forma efetiva.

Já se houver demora para chegar ao alvo principal, diz McRaven, o pequeno grupo de forças especiais fica exposto ao que Clausewitz chama de "fricções da guerra".

Ou seja, o grupo fica sujeito a falhas individuais, ao acaso e ao choque com um Exército convencional, mais numeroso e armado -ao qual a reduzida tropa não tem condições de resistir por um tempo prolongado.

(Para visualizar o gráfico em tamanho original, clique na imagem)

The New York Times: A morte de Bin Laden e a nova incógnita no Afeganistão

Muitos talebans recebem ajuda de fontes paquistanesas, e seu líder espiritual, o mulá Muhammad Omar, estaria no Paquistão
Dos esconderijos de barro dos talebans ao quartel-general da Otan em Bruxelas e ao Pentágono, os combatentes em uma guerra que já dura uma década fazem diferentes versões da mesma pergunta: como a morte de Osama bin Laden altera a disputa sobre quem vai controlar o Afeganistão?

Os talebans dizem que sua insurgência nunca dependeu só de Bin Laden, e eles poderão sobreviver a sua morte, mas o ataque americano que o matou levantou a possibilidade de que nem os principais líderes do movimento estejam seguros no Paquistão.

Muitos líderes europeus, porém, veem a morte de Bin Laden como mais um motivo para sair de uma guerra que, de qualquer modo, eles prometeram deixar nos próximos três anos. E, em Washington, membros do governo dizem acreditar que a morte de Bin Laden lhes oferece uma oportunidade de envolver a liderança taleban em uma negociação política.

"Se você é o mulá Omar", disse um dos principais assessores do presidente Obama sobre o líder espiritual dos talebans afegãos, que opera no Paquistão, "tem de se perguntar se o próximo conjunto de helicópteros virá para pegá-lo."

O mistério, hoje, é se a eliminação de Bin Laden como figura central da batalha entre os fundamentalistas e o Ocidente é realmente um ponto de virada, como aposta a Casa Branca.

Isso pode depender de acontecimentos futuros: se a Al Qaeda atacará de volta pela morte do seu líder, se a força militar americana no Afeganistão permanecerá em seu atual nível, e se os próprios militares afegãos serão mais capazes do que até agora de assumir a liderança em regiões disputadas do país.

Durante toda a semana passada, Obama e seus assessores enfatizaram que o objetivo é derrotar a Al Qaeda -os talebans, afirmam as autoridades desde 2009, precisam ser "degradados" como força para que os afegãos possam combatê-los, e os Estados Unidos possam sair do país. Separar a Al Qaeda dos talebans sempre foi um requisito de Washington para qualquer negociação.

Mas existe uma possibilidade alternativa citada em Cabul: os talebans podem levar a sério a morte de Bin Laden se sentirem que esse fato -e as disputas internas na Al Qaeda- poderá acelerar uma retirada americana da região.

Embora os talebans e a Al Qaeda tenham sido equiparados, acredita-se que seus objetivos sejam diferentes. A meta dos talebans é controlar o Afeganistão, enquanto a Al Qaeda pretende estabelecer uma rede terrorista global.

A pergunta para os Estados Unidos, agora, é quantos recursos devem ser dedicados a lidar com o que é essencialmente uma rebelião local, agora que Bin Laden se foi?

O apoio do Paquistão, a sobrevivência do mulá Omar e a relutância dos combatentes talebans a aderir ao governo afegão tornam improvável que a energia do movimento se esgote imediatamente.

De maneira semelhante, os líderes talebans não tiveram liberdade para sentar-se com o presidente Hamid Karzai e elaborar um acordo sem entrar em conflito com seus anfitriões paquistaneses.

Além disso, a importância da Al Qaeda para uma insurgência que está longe de uniforme em todo o Afeganistão, especialmente em termos de financiamento, diminuiu, segundo analistas de inteligência ocidentais e afegãos.

Um oficial de segurança afegão que rastreou membros da Al Qaeda desde 2001 e pediu para não ser identificado por causa de seu trabalho disse que Bin Laden não foi apenas uma figura carismática que inspirou tantos combatentes, mas também o principal captador de financiamento de ricos apoiadores em países árabes.

Os talebans já estão experimentando uma escassez de dinheiro em consequência da Primavera Árabe, disse o oficial.
Igualmente importantes para os talebans são seus refúgios e campos de treinamento nas áreas tribais do Paquistão, amplamente desgovernadas. Se eles sobreviverão, depende principalmente do Paquistão.

Toor Jan, um ex-membro dos talebans em Kandahar que se uniu ao programa de reconciliação do governo afegão em março, disse que estrangeiros acompanharam seus homens como mentores. "Havia alguns estrangeiros em cada grupo taleban, podemos dizer que dois ou três combatentes estrangeiros que ensinavam a usar munição e a plantar explosivos improvisados para provocar explosões", disse.

Sua descrição foi confirmada por membros das inteligências ocidental e afegã. O número de combatentes da Al Qaeda no Afeganistão foi, muitas vezes, estimado em menos de cem, segundo autoridades da inteligência local. Como eles serão afetados pela morte de Bin Laden não está claro, dizem elas.

sábado, 21 de maio de 2011

Sakharov: As controvérsias do acadêmico

A vida de Andrei Sakharov foi cheia de paradoxos. Inventou a bomba de hidrogênio, mas foi um pacifista. Foi um gênio da ciência, mas pecou pela ingenuidade e escutou conselhos as vezes mal intencionados. Mas Sakharov sempre será lembrando como humanista. Esse foi o acadêmico Andrei Sakharov.

Se estivesse vivo, Andrei Sakharov, pai da bomba de hidrogênio soviética, completaria hoje 90 anos

Andrei Sakharov
O homem que inventou a bomba de hidrogênio é o mesmo que anos depois recebeu o prêmio Nobel da Paz. A vida de Andrei Dmitrievich Sakharov, como costumam dizer os gênios, era cheia de paradoxos. Famoso como cientista soviético, mas também conhecido como dissidente. Nesse sábado ele completaria 90 anos, caso estivesse vivo.

Nos princípios da Guerra Fria, período conhecido pela corrida armamentista entre EUA e URSS, Sakharov cria que os norte-americanos não deviam ter o monopólio das armas nucleares. Seus trabalhos conduziram o seu país a ser o segundo país a deter um arsenal atômico.

Boris Altshuler, colega de Sakharov, comenta: “Podemos dizer que isso determinou o destino da humanidade. Não tivemos uma Terceira Guerra Mundial. Assim foi melhor, porque desta maneira se restabeleceu o equilíbrio.”

Num primeiro momento, Sakharov estava convencido da importância de seu trabalho aplicado no desenvolvimento de armas nucleares. Mas mesmo assim tinhas noção das implicações reais de sua descoberta. Um teste da bomba nuclear de hidrogênio, em 1955, em que morreu uma criança e um soldado fez Sakharov mudar totalmente sua postura acerca das armas nuclares. Durante a década de 60, Sakharov começou a protestar ativamente contra a proliferação das armas atômicas e experiência nucleares.

Embora fosse o cientista socialista mais famoso, ao alcançar a maturidade, começou a promulgar idéias quase impossiveis para a URSS. Por exemplo, ele dizia que a “úncia maneira de alcançar a paz” era “a reconcialiação do comunismo e do capitalismo”. Já por essa época, regularmente escrevia sobre as liberdades individuais e os direitos humanos. Em 1971, dirigiu-se diretamente ao governo da URSS, propondo que se fossem libertos todos os presos políticos, que acabassem com a restrição dos soviéticos de viajar à outros países estrangeiros, junto com outras muito valentes para o seu tempo.

Em 1975, Sakharov recebeu o prêmio Nobel da Paz por sua luta em favor dos direitos humanos, a limitação dos arsenais bélicos e a cooperação com outras nações.

Quando em 1979 e 1980, depois de fazer várias ocupaçãoes contra a entra das tropas soviéticas no Afeganistão, foi preso. Sakharov junto com sua mulher foi enviado a uma cidade pequena de Gorki, com a absoluta proibição de sair dalí.

Mas isso não fez cessar a luta de Sakharov, que continuava a apoiar os presos políticos da URSS e exigindo a abolição da pena de morte em todo o país. Apesar da repressão do governo, não cessava em hipotese açguma o ativismo. Somente em 1986, Sakharov foi liberado do exilio; E nos três anos que antecederam sua morte, seguiu trabalhando para mostrar ao povo que era possivel viver em mundo mais justo e unido.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Espião israelense, expulso da Rússia, buscava dados sobre a suposta colaboração russa com os países árabes

O adido militar da Embaixada de Israel em Moscou, deportado da Rússia, tentava receber informação secreta sobre a suposta colaboração militar da Federação Russa com os países árabes.

Nessa sexta-feira, 20 de maio, o Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (FSB) russo anunciou que Vadim Leiderman, buscava dados secretos sobre as perspectivas de cooperação bilateral bélica entre Rússia e Israel, assim como alguns países árabes e ex-repúblicas soviéticas.

As autoridades russas afirmam que decidiriam tornar público a presença e atividade dos espiões israelenses na Rússia para não denegrir a imagem do país hebreu. No entanto, depois que Israel permitiu uma infiltração (dos espiões), o FSB se viu obrigado a divulgar os dados oficiais das ações do agente.

No dia 12 de maior, Liederman foi detido e declarado persona ‘non grata’ na Rússia e em menos de dois teve que abandonar o país.

O Paquistão é uma bomba-relógio

Esta semana a revista “Time” o apontou como “o país mais perigoso do mundo”. Não sem razão. É um Estado nuclear, hipermilitarizado, sofrendo de esquizofrenia avançada com tendências paranoicas.

Pensando bem, não é nada surpreendente que Osama Bin Laden tenha passado dias tranquilos a 100 quilômetros da capital desse país. Nada surpreendente que o fundador da Al Qaeda tenha morado ali durante anos, a alguns metros de um escritório local dos serviços de inteligência. Nada surpreendente porque esse país, o Paquistão, está muito, muito doente.

Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, ele é o aliado dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo. Mas ele abriga, protege e mantém muitos pequenos grupos terroristas em seu território. Ele depende imensamente da ajuda americana para sobreviver. Mas, por intermédio de protegidos afegãos, ele luta contra as forças americanas no vizinho Afeganistão.

Nos mais altos escalões do poder militar, o Paquistão manifesta uma complacência condenável com muitos grupos islamitas. Mas ele mesmo é vítima diária de atentados mortíferos. É controlado pelas forças armadas e serviços secretos onipresentes. Mas não sabia que Bin Laden estava morando em uma imponente mansão a uma hora de estrada da capital, Islamabad...

Então do que sofre esse país de 180 milhões de habitantes, dotado da bomba atômica e que se pretende um modelo de Estado muçulmano? Resposta: ele nunca se recuperou das condições de seu nascimento. Quando o Reino Unido abandonou essa parte de seu império colonial, em 1947, aceitou o princípio de uma divisão.

Os muçulmanos do Império das Índias se reagruparam naquilo que se tornou o Paquistão. Mas entre os dois novos Estados, a Índia e o Paquistão, subsiste um grande conflito territorial em torno da Cachemira (no nordeste do Paquistão). E, desde 1948, eles vêm brigando pelo controle dessa região povoada de muçulmanos.

A ONU impôs um cessar-fogo e uma linha de demarcação que corta a Cachemira em duas. Em vão. Por mais duas vezes, em 1965 e em 1999, a Índia e o Paquistão se enfrentaram pela Cachemira. É um conflito territorial estúpido, típico do início do século passado. Mas os protagonistas são países jovens, e um deles, o Paquistão, vive, se constrói e se consome na perspectiva da guerra com seu vizinho.

Os militares paquistaneses veem a Índia em toda parte. Eles são obcecados pela ideia de cerco: é só o Afeganistão, a oeste, passar a ficar sob influência de Déli, e eis que o Paquistão se vê pego entre a cruz e a espada...

Isso explica a linha diretriz, central, da estratégia paquistanesa: ter o domínio sobre o Afeganistão. Assegurar-se de que o pequeno vizinho ocidental (menos de 30 milhões de habitantes) esteja nas mãos de um regime amigo, e assim dispor de uma zona de retirada estratégica na perspectiva de uma grande guerra com a Índia.

Analista militar, ex-general do exército paquistanês, Talat Masood descreve – no “International Herald Tribune” de 16 de maio – a elite militar de seu país como “obcecada pela Índia como inimiga”. Ele fala em uma política que tem um alvo somente:  Índia,  Índia, e mais Índia.

É provável que a obsessão do cerco indiano seja uma fantasia. Se a Índia vem aumentando seu orçamento da defesa, é para não ficar atrás da China, e não por medo do Paquistão. Mas a fantasia do exército paquistanês é bem útil. Ela o autoriza a se apropriar de um quarto do orçamento do Estado.

E a dita fantasia explica também os talebans, pois foi para dispor dessa famosa alavanca sobre o Afeganistão que Islamabad criou os talebans afegãos, armando-os, protegendo-os e abrigando-os. Os talebans, estabelecidos nas regiões fronteiriças pashtuns comuns aos dois países, são os agentes do Paquistão no Afeganistão. Enquanto o Paquistão não tiver a garantia de um governo que lhe seja favorável em Cabul, ele instrumentalizará os talebans.

O general Masood diz muito bem: “Os paquistaneses estão determinados a ter direito à palavra e a mostrar sua influência sobre o Afeganistão (...) graças aos talebans afegãos e outros grupos igualmente hostis aos Estados Unidos”. Mas e Bin Laden?, dirão vocês. Mesma resposta: por causa da obsessão indiana, sempre. A Al Qaeda e Bin Laden encontraram no Paquistão redes de cúmplices. Não por acaso. Para lutar contra a Índia e apoiar um movimento de libertação ativa na Cachemira indiana, povoada de muçulmanos, o exército e os serviços secretos paquistaneses (o ISI) apadrinharam pequenos grupos terroristas jihadistas.

Um de seus protegidos, o Lashkar-e-Taiba, estabelecido no Paquistão, é considerado responsável pelo ataque terrorista a Mumbai, que resultou em 150 mortos e mais de 300 feridos em novembro de 2008.

Tolerados pelo ISI, talebans e grupos islâmicos armados explicam a logística da qual Bin Laden se beneficiou no Paquistão. Citado esta semana no “New York Times”, o jornalista de televisão paquistanês Kamran Khan observou: “Nós nos tornamos  a maior reserva terrorista do mundo”.

Os Estados Unidos se perguntam: será que eles devem continuar a ajudar um país que – desde o caso Bin Laden até o apoio constante aos talebans – demonstra tanta falsidade em relação a eles? Desde 2001, a ajuda a Islamabad chegou a US$ 11 bilhões (R$ 18 bilhões). Existe um grupo de pressão anti-paquistanês no Congresso e na imprensa americana.

Só que essa espécie de Estado falido de componente islamita, dotado de bomba atômica, causa medo. Quer se trate de operar uma retirada do Afeganistão em 2014, ou, até lá, de favorecer uma solução política nesse país, os Estados Unidos precisam do Paquistão. E, por todas essas razões, continuarão a cooperar com “o país mais perigoso do mundo”.

"Eu nunca vi nenhum remorso", diz promotor de crimes de guerra nazistas

John Demjanjuk
O julgamento de John Demjanjuk,terminou nesta semana. O suposto ex-guarda de campo de concentração nazista foi condenado a cinco anos de prisão. Numa entrevista à Spiegel, Ulrich Maass, um dos promotores públicos alemães mais importantes contra crimes de guerra nazistas, discute o caso e detalhe as falhas do sistema de justiça do país.

Ulrich Maass passou a última década perseguindo casos similares enquanto chefe da unidade especial da promotoria pública de Norte Rhine-Westphalia para crimes de guerra violentos do nazismo, entre 2000 e 2010. O homem de 64 anos compartilhou sua visão sobre o julgamento de Demjanjuk e como ele revela as mudanças na abordagem da Alemanha ao julgar os poucos perpetradores nazistas remanescentes.

Spiegel: A culpa do réu foi provada?


Maass: O veredito nos dirá isso. A maneira como a fábrica da morte de Sobibor funcionava foi estudada a fundo. Os guardas estavam envolvidos em todos os níveis do esforço de extermínio. Eles pegavam as pessoas dos trens de deportação e, no fim, as guiavam para as câmaras de gás.

Para Christiaan F. Rüter, um professor de lei criminal de Amsterdam, Demjanjuk é “o menor dos peixes pequenos”. Ele era um soldado soviético recrutado pelos alemães depois que foi capturado.

Essa situação foi levada em conta, é claro. Mas não significa que ele foi forçado a obedecer ordens. Os historiadores não encontraram nenhuma prova de que alguém seria assassinado se se recusasse a participar dos fuzilamentos em massa.

Antigamente os réus se livravam com esse tipo de argumento. Por que os tribunais têm uma visão diferente hoje?

Na época, os tribunais tendiam a seguir o princípio de que os últimos elos da cadeia de comando não deveriam ser responsabilizados. Temos informações mais amplas hoje, como dados dos arquivos do leste europeu. Avaliar as injustiças da Alemanha Oriental também nos deu uma compreensão maior sobre quanta liberdade de ação existe numa ditadura. Numa decisão inovadora de 1995, o Tribunal Federal de Justiça decidiu, por exemplo, que as normas mais rígidas que os tribunais da Alemanha Ocidental aplicaram para juízes da Alemanha Oriental também deveriam ser aplicadas aos juízes nazistas.

Mas na época os juízes nazistas já haviam morrido sem nunca terem sido acusados, como muitos organizadores do genocídio. Agora os tribunais estão acusando apenas os perpetradores menos importantes. Isso é justo?

É claro que não. Os aliados soltaram muitos dos principais perpetradores depois de apenas alguns anos na prisão, e os tribunais alemães não podem mais alcançá-los. Em outros casos, houve médicos que declararam pessoas de 60 anos incapazes de suportar o julgamento e emitiram os documentos necessários, que declaravam que eles sofriam de doenças como problemas cardíacos, cirrose e silicose. Isso não funciona mais hoje em dia.

Como você lida com essa injustiça?

Você sente uma certa náusea, talvez comparável à sensação que alguém tem quando os ladrõezinhos de supermercado são pegos e os grandes fraudadores econômicos conseguem escapar impunes. Mas a alternativa não pode ser deixar os ladrões escaparem também.


O judiciário alemão foi persistente o suficiente para investigar os perpetradores nazistas?

Felizmente Norte Rhine-Westphalia decidiu estabelecer um departamento especializada em prossecução. Mas a justiça acaba sendo uma questão para os estados decidirem...

… e em outros lugares os promotores estão trabalhando em questões criminais nazistas além de suas atividades diárias, então muitos casos acabam minguando. O Escritório Central das Administrações de Justiça Estadual para Investigação de Crimes Nacional-Socialista em Ludwigsburg só pode fazer investigações preliminares. Será que a República Federal da Alemanha deveria ter desenvolvido uma agência central para processar os criminosos nazistas?

Você terá que perguntar aos políticos. Não há na lei alemã um item específico para os crimes de massa nazistas. Nós acusamos as pessoas de assassinato ou por ajudar ou incentivar o homicídio. Nós promotores criminais às vezes nos sentimos como operários de rua que recebem uma chave de fenda, em vez de uma britadeira, para trabalhar.


Para processar os terroristas da Facção do Exército Vermelho de extrema esquerda da Alemanha de forma mais eficiente, o judiciário concentrou suas competências no escritório do Promotor Público Geral em Karlsruhe. Por que isso não foi feito com os perpetradores nazistas?

Depende de onde os políticos estabelecem suas prioridades. Eles estabeleceram sua vigilância sobre o terrorismo de esquerda e perseguiram os processos criminais que por fim levaram ao sucesso. Isso não se aplica aos nossos casos. Em retrospectiva, seria certamente correto nomear mais promotores para pesquisar esses casos. Mas há algumas décadas se dizia que o problema se resolveria por si só por motivos biológicos, porque os perpetradores morreriam. E hoje, 66 anos depois do fim da guerra, temos 12 casos ativos apenas em Dortmund.


Isso significa que o julgamento de Demjanjuk não será o último?

Tudo o que eu fiz nos últimos anos foi preparar casos que eram supostamente os últimos do tipo. O problema, entretanto, é que os réus estão se tornando cada vez mais fisicamente incapazes de suportar o julgamento ou estão morrendo, como foi o caso do ex-guarda do campo de Belzec, que vivia perto de Bonn.

Você lidou com dezenas de homens que cometeram assassinato durante a era nazista. Existe algo parecido com o criminoso nazista típico, e como ele se sente em relação a seus crimes?

Eu nunca vi nenhum remorso. A desculpa comum é que eles agiram de acordo com a lei, como se não houvesse nada como uma proibição maior contra matar pessoas. Havia sádicos, mas eles não eram a norma, que costumava ser o auxiliar comum. “Hitler's Willing Executioners”, “Os Carrascos Voluntários de Hitler”, embora seja um título de livro controverso, acerta em cheio. Era um grupo grande de pessoas que estavam preparadas para fazer qualquer coisa.