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quinta-feira, 1 de março de 2012

Encontros e desencontros entre palestinos e israelenses


Milhares de pessoas participam de manifestação na Cisjordânia em defesa da criação de um Estado palestino

Momentos de esperança são raros neste conflito miserável e interminável entre israelenses e palestinos, tão arcaico em seu caráter colonial, tão pós-moderno nos métodos usados por Israel para oprimir os palestinos vivendo sob seu governo.

Houve um momento como esse por volta da época em que Israel e a Organização para a Libertação da Palestina assinaram os Acordos de Oslo em 1993. Logo depois, a cineasta Esther Dar contatou minha mãe, propondo fazer um documentário sobre ela e algumas amigas, duas árabes palestinas e duas judias israelenses que passaram quatro anos juntas em um internato anglicano em Jerusalém, a partir de 1939, durante o Mandato Britânico na Palestina. “Four Friends” mostra as setuagenárias Salma Dajani e Wedad Shehadeh, e Olga Belkind e Sharona Aharon, voltando para visitar sua antiga escola mais de meio século após deixá-la.

No filme, Salma e minha mãe, Wedad, também retornam a suas antigas casas em Jaffa. As famílias delas foram forçadas a sair em 1948, após a declaração israelense de independência. Foi uma visita cheia de emoção. Salma não conseguiu conter as lágrimas quando viu o estado da sepultura de seu pai, na propriedade do Hospital Dajani, que ele fundou em 1933. “Four Friends” a mostra se dirigindo a Israel e lamentando: “Vocês tomaram tudo. Ao menos nos permitam cuidar de seu túmulo”.

Quando o filme foi exibido na televisão israelense uma década atrás, um arquiteto aposentado de Tel Aviv sentiu ultraje. Ele iniciou uma pequena campanha em nome dos Dajanis. No final, ele obteve permissão da família para colocar uma lápide no hospital. Ele também recomendou à câmara municipal conjunta de Tel Aviv-Jaffa que batizasse uma rua com o nome do pai de Salma, o dr. Fouad Dajani.

Isso levou muitos anos. Mas no domingo passado, sob um céu agradável com nuvens brancas finas, cerca de 200 convidados se reuniram em uma rotatória no centro de Jaffa para rebatizá-la em homenagem ao árabe palestino que fundou o primeiro hospital particular da cidade. Muitos membros da família Dajani vieram para a ocasião, e de diferentes partes do mundo. Como Israel os considera “ausentes”, eles tiveram de entrar no país com passaportes estrangeiros.

Nós aguardamos pelo prefeito. Nuvens escuras começaram a se formar. Tocava “What a Beautiful World” de Louis Armstrong. Olhando para o alto, o mestre de cerimônias, um morador árabe de Jaffa cujo avô se recusou teimosamente a deixar sua casa, apesar das frequentes explosões de bombas, disse desejar que a chuva fosse adiada.

A cerimônia teve início. Discursos foram feitos promovendo a união de Jaffa e Tel Aviv e a cooperação entre árabes e judeus. O chefe local do movimento islâmico disse que Jaffa, antes um centro de cultura e medicina, agora estava renascendo. Um árabe da câmara municipal contou a história de uma mulher judia de 93 anos que trabalhou como enfermeira no Hospital Dajani nos anos 30. Quando ela se candidatou ao emprego, Dajani lhe disse: “Neste hospital, nós falamos árabe”. Ali estava um momento de civilidade entre judeus e árabes vivendo juntos na Palestina. Ele contraria a insistência de Israel de que a guerra de 1948 era inevitável.

Das mulheres exibidas em “Four Friends”, apenas Olga Belkind estava viva e bem de saúde para participar da cerimônia no domingo. Ela mora atualmente em Jaffa. Durante o evento eu pensei em minha mãe, por cuja casa de sua família nós passamos no caminho, e em meu pai, cujo escritório de direito foi apontado por meu irmão. Eu pensei nas dificuldades que enfrentaram após serem forçados a sair de Jaffa.

No fundo da plateia, uma jovem mulher israelense estava em pé, segurando uma placa que dizia: “Todos falam sobre paz, mas ninguém fala sobre retorno”. Ele era do Zochrot (Lembrança), uma organização não governamental israelense que busca aumentar a conscientização, especialmente entre os judeus em Israel, sobre a nakba –a catástrofe, o início do êxodo forçado dos palestinos em 1948.

Quando me aproximei dela, eu encontrei ao seu lado o arquiteto israelense que iniciou todo o movimento. Ele estava pedindo para que ela voltasse para casa. Ele achou que ela estava complicando as coisas ao levantar a questão da nakba. “Esta é uma iniciativa pessoal que não deve ser politizada”, ele disse para ela. A política assustará os israelenses, impossibilitando batizar qualquer outra rua de Jaffa com o nome dos árabes que já viveram aqui. Ela se manteve firme e se recusou a partir.

Uma única rotatória em uma cidade onde 125 mil árabes viveram há meio século agora tem o nome de um de seus moradores mais famosos (não tem importância que a palavra “hospital” em árabe, na placa comemorativa, estava escrita de forma errada). Mas o Hospital Dajani, pelo qual o homem estava sendo homenageado, permanece nas mãos do Estado israelense –um Estado que continua a negar os direitos de seus descendentes, os chamando de ausentes e se recusando a tratá-los até mesmo como refugiados.

Ainda assim, foi uma bela tarde de domingo, e não choveu.

(Raja Shehadeh,  advogado e escritor que vive em Ramallah, é autor de “A Rift in Time” e “Caminhos Palestinos”. Seu novo livro, “Occupation Diaries”, será publicado em agosto.)

Seria possível imaginar um chavismo sem Hugo Chávez?


Imagem do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na estatal PDVSA na cidade de Caracas
Há inúmeros motivos para em certos casos temer e em outros desejar que o resultado das eleições presidenciais de 7 de outubro próximo na Venezuela influa diretamente na experiência chavista. Hugo Chávez, inventor nos últimos 12 anos da refundação-revolução no país, está, como já se suspeitava mas ele não queria reconhecer, gravemente doente. Não é o primeiro caso na história. O presidente da Quinta República francesa, Georges Pompidou, sucessor do general De Gaulle, visivelmente inchado de cortisona em seus últimos meses de mandato, nunca chegou a publicar o que todo mundo adivinhava.

O presidente venezuelano insistiu repetidamente, desde que foi operado em junho passado em Havana de um câncer na pélvis, que sua recuperação tinha sido total. Poucos dias antes que admitisse na semana passada que o mal havia se reproduzido, e que fora operado pela terceira vez em Cuba, um dos que mais soam como eventual sucessor, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, ainda dizia com afetado sarcasmo que a oposição teria uma grande decepção sobre o estado de saúde do presidente. Mas a decepção deve ter sido dele, quando seu chefe falou. Lição recorrente: Hugo Chávez é tão pessoal como governante que nem a seus mais próximos havia contado como estavam as coisas.

Além disso, a convalescença deveria afastá-lo durante semanas de um governo ativo, tanto se permanecer na capital cubana como se regressar a Caracas, e nem por isso ele delegou poderes a seu vice-presidente, Elías Jaua.

As nomeações dos últimos meses indicam, entretanto, o que poderia ser um projeto de plano sucessório. Em novembro de 2010 Chávez escolheu o general Henry de Jesús Rangel Silva como comandante em chefe do exército, militar da linha ultrachavista, que ao ser designado já avisou que a milícia não aceitaria uma mudança de rumo em consequência das eleições, e que esteve com Chávez no fracassado golpe de Estado de 4 de fevereiro de 1992.

Assim como Rangel, os generais Hugo Carvajal, chefe da inteligência militar; Manuel Bernal, chefe da guarda presidencial, e Jesús Suárez, da 42ª brigada paraquedista, todos eles recém-designados, participaram, como o próprio Cabello, da intentona golpista. Entre as últimas nomeações de peso, só a do general Clíver Alcalá, hoje chefe da 4ª Divisão, a mais bem dotada das forças armadas, com novíssimo material russo, não pertence ao círculo de 92.

Se houver sucessão, o Chavismo Dois ou pós-chavismo, no caso de o governo ganhar as eleições, vestirá uniforme. Chávez fracassou, ou nem sequer o propôs, em institucionalizar a chamada revolução bolivariana. O chavismo foi concebido como uma religião política, assim como o marxismo-leninismo na União Soviética e na Cuba castrista.

E para se institucionalizar, além de ter um sucessor reconhecível, o chavismo deveria ter sistematizado a fé, organizado o mito que tem como primeira deidade o libertador Simón Bolívar e tentado racionalizar politicamente um mistério, o socialismo do século 21, que hoje continua sendo somente um nome. Como diz o brilhante biógrafo do líder, Alberto Barrera: "Chávez é a emoção através da qual o povo se conecta com o poder". Mas o que há por trás desse vínculo com matizes de encantamento?

Por enquanto, um despotismo social, um estatismo autoritário que se define pela existência do líder-caudilho, possuidor do carisma popular que lhe permita interpretar, como fez, sua própria Constituição com a flexibilidade necessária para favorecer sua vitória nas urnas, mas que entretanto não levou o projeto bolivariano a suas últimas consequências: a ditadura.

Esse sistema híbrido, do qual o líder intelectual da oposição, Teodoro Petkoff, disse a "El País" que se encaminhava para "um totalitarismo 'light'" - tão híbrido quanto essa própria contradição em termos - é dificilmente institucionalizável, porque se não fechar a via ao poder de outras forças não pode garantir sua própria sucessão.

Em suas copiosas mas certamente desordenadas leituras, ignora-se se o presidente terá prestado atenção nas palavras de Maquiavel: "Não é salvação de uma república contar com um príncipe que governa com prudência - do que jamais se poderia acusar Chávez -, mas sim com um que a regule de tal modo que, mesmo quando falte, fique preservada". Por isso é difícil imaginar um chavismo sem Chávez.

Embaraço à americana


Chefe da Força Aérea dos EUA critica cancelamento de contrato da Embraer

O comandante da Força Aérea dos EUA, general Norton Schwartz, criticou ontem duramente a decisão do governo americano de cancelar o contrato para o fornecimento de 20 aviões Super Tucano da Embraer, no valor de US$ 355 milhões, depois de a companhia brasileira, em parceria com a Sierra Nevada, ter vencido uma licitação para o fornecimento de aerovanes de vigilância, que seriam usadas no Afeganistão. Schwartz qualificou o cancelamento, anunciado na terça-feira, de "vergonhoso", disse que representa um embaraço para a Força Aérea dos EUA e acrescentou estar "profundamente desapontado".

A licitação foi contestada por uma empresa americana, que recorreu à Justiça. Mas o governo americano alegou que o motivo do cancelamento do contrato se deveu a problemas nos documentos apresentados por Embraer e Sierra Nevada. Contrariado com o argumento, Schwartz disse que "sua reputação institucional corria risco" e acrescentou que seu pessoal vai "ralar" para descobrir o que há de errado na licitação e corrigi-la. E, se não houver nada além de um erro inocente, "haverá um alto preço a pagar". Em nota divulgada na terça-feira, a empresa brasileira garantiu que a documentação entregue está correta.

Schwartz disse que será "uma profunda decepção" se os fatos mostrarem que a Força Aérea estragou o contrato, e expressou preocupação de que o cancelamento possa atrasar a entrega de uma aeronave vital para o exército afegão. "Uma das coisas com as quais estou mais triste - sem mencionar a vergonha que esse fato traz para nós como Força Aérea - é que estamos deixando nossos parceiros na mão aqui", disse ele, segundo agências de notícias.

Cancelamento favorece França

O cancelamento do contrato fortalece a França na disputa com americanos e suecos para a venda do novo caça de múltiplo emprego da Força Aérea Brasileira (FAB). Essa é a avaliação interna feita ontem em alguns setores do governo que, embora tenham lamentado o episódio nos bastidores, evitaram comentar a decisão, alegando seu caráter puramente comercial.

Por enquanto, não se espera que a Embraer leve o caso a alguma corte internacional. O caminho mais natural, segundo pessoas próximas à empresa, será pressionar o governo brasileiro a entrar na briga e cobrar uma explicação ao governo Obama. Procurada oficialmente, a companhia disse que não faria novos comentários além do que foi informado em nota distribuída na própria terça-feira, na qual disse "lamentar" o cancelamento e que aguardaria os desdobramentos do caso para decidir "os próximos passos".

Segundo um graduado funcionário do governo, na questão dos caças, há pelo menos dois fatores a favor dos franceses: a maior previsibilidade e a promessa de compra de dez KC-390 produzidos pela indústria brasileira de aeronaves, com valor total estimado em US$ 1,2 bilhão, ou seja, mais do que os US$ 355 milhões perdidos pela Embraer nos EUA.

Ainda não há decisão sobre qual será o fornecedor de 36 caças para a FAB - operação que custará aos cofres públicos algo entre US$ 4 bilhões e US$ 6,5 bilhões. A diretriz escolhida será conhecida este ano, assegurou um técnico envolvido no assunto.

Segundo a fonte, a possível preferência pelo francês Rafale não seria uma retaliação contra os EUA no caso da Embraer. Mas o episódio serve como advertência às próprias autoridades brasileiras de que não é possível confiar plenamente no mercado americano.

Além disso, a posição francesa é reforçada porque o pacote de vantagens em troca da compra inclui a venda do KC-390 - projeto de aeronave para transporte tático/logístico e reabastecimento em voo, previsto para começar a voar a partir de 2014. É também chamado de avião de assalto, capaz de pousar no campo de batalha, introduzindo tropas e carros de combate perto da zona de conflito.

A França oferece o Rafale, produzido pela Dassault, enquanto os EUA tentam emplacar o F-18, da Boeing. Já os suecos têm o Gripan, da Saab.

No governo anterior, o ex-presidente Lula chegou sinalizar, ao receber no Brasil o presidente francês, Nicolas Sarkozy, que a preferência era pelo Rafale. Dias depois, o governo esclareceu que ainda não havia decisão a respeito.

Um documento interno mostra que os investimentos do Brasil nessa área tendem a despertar cada vez mais a cobiça dos parceiros internacionais. Existe uma projeção de que, em 2025, a FAB terá 1.200 caças de novas gerações para a defesa aérea do país, que atuarão com o apoio de aeronaves de inteligência de combate. Em comparação com os EUA, atualmente aquele país possui cerca de 2.400 aeronaves.

Outro ponto relevante é que, com a transferência da administração de aeroportos civis, o controle aéreo e o transporte de autoridades (à exceção do presidente da República), a FAB terá como função primordial a defesa aérea do país, a partir de 2025. Daí a necessidade de se investir em aeronaves inteligentes de combate.

A venda do Super Tucano para o governo dos EUA era vista como estratégica pela Embraer para ampliar as receitas do seu braço de defesa e segurança, que responde hoje por cerca de 14% do seu faturamento líquido. A vitrine americana poderia abrir espaço para negócios com outros países, como os da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Irã e Embraer voltam à agenda com os EUA


Irã e aviões da Embraer, dois temas que geraram atritos entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, voltaram à agenda bilateral a pouco mais de um mês da viagem da presidente Dilma Rousseff a Washington, para um encontro com o presidente Barack Obama.

O cancelamento de uma licitação para venda de jatos à Força Aérea americana, por pressões políticas nos EUA, incomodou as autoridades brasileiras, que receberam do Departamento de Estado americano a garantia de que a decisão nada tem a ver com notícias de possível escolha do caça francês Rafale para equipar a FAB.

O tema deve ser tratado amanhã pelo governo com um enviado do Departamento de Estado, William Burns, que chega hoje ao Rio para preparar a visita de Dilma. Burns deve fazer um pronunciamento público e conceder entrevista, antes de viajar a Brasília para falar às autoridades brasileiras. Deve enfatizar os pontos de interesse comum entre os dois países. Mas, nos últimos dias, ações brasileiras em relação ao Irã voltaram a preocupar autoridades em Washington.

O ministro de Relações Exteriores, Antônio Patriota, preocupado com as ameaças de ataque ao Irã, por Israel, e pelas declarações de Obama de que "todas as opções estão na mesa", pediu ao secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, que se pronunciasse sobre a legalidade, no direito internacional, das ameaças de uso unilateral da força.

Algumas opções são "contrárias às leis internacionais", diz o ministro, para quem as ameaças "aumentam a tensão de maneira desnecessária". Os diplomatas brasileiros vêm sondando, na ONU, a receptividade a uma ação preventiva que condene qualquer solução no caso do Irã não aprovada em negociações multilaterais.

Embora autoridades iranianas tenham manifestado interesse em ter o Brasil entre os mediadores sobre a fiscalização do programa nuclear, o Itamaraty descarta a ideia, a menos que haja uma delegação explícita dos países envolvidos.

O caso da Embraer, pelo menos por enquanto, tem menor potencial de aumentar atritos entre os dois governos. No Planalto e no Itamaraty, o cancelamento da licitação é visto como consequência da disputa interna entre a Boeing, que quer vender caças ao Brasil, e a Lockheed, cuja subsidiária compete com a Embraer no mercado americano. Segundo um assessor de Dilma, o Brasil passará a denunciar publicamente como má-fé dos EUA, se a Força Aérea americana rejeitar a Embraer sob bases frágeis, como o fato de que o governo brasileiro tem uma "golden share" na empresa.

A queda dos aviões


A rede mundial de negócios de armamentos e equipamentos militares não tem limites éticos nem legais

 A SUSTAÇÃO da encomenda, pelo governo americano, de 20 Super Tucanos da Embraer no valor de US$ 355 milhões, é mais complexa do que as frequentes perdas de negócios. E exige do governo brasileiro cuidados especiais ao tratar do assunto nos Estados Unidos.

As causas da sustação, variadas segundo os autores de considerações sobre o caso, são todas admissíveis até que os americanos exponham as suas com clareza convincente. Atitude, aliás, das menos prováveis, mesmo considerando a rudeza que os americanos se permitem, por falta de algo melhor a conduzi-los ou pelo descaso com interesses que não sejam os seus.

A preliminar do governo brasileiro conviria ser a cautela quanto a incorreções éticas no negócio. A existirem, os americanos podem usá-las para provocar brasileiro, político e moral, na hora em que a elevação internacional do Brasil nos põe fora do seu círculo de manipulação. A atitude de rejeição do governo Obama ao Brasil, depois de pedir-lhe e à Turquia um esforço (bem-sucedido) de apaziguamento do Irã, foi mais do que um agravo.

Apesar de não visto assim no Brasil (fora do governo), foi a declaração oficial de uma linha divisória nas relações Brasil-Estados Unidos.

Nos negócios de armamentos, de modo geral, a corrupção só é um componente menor do que o é nos serviços de obras públicas por empreiteiras. Ambos, no mundo todo. Os equipamentos militares contam, porém, por boas e pelas razões mais abjetas, com a vantagem de ter a cobertura do Estado para processar-se em sigilo, na medida desejada.

A rede mundial de negócios de armamentos e equipamentos militares não tem limites éticos nem legais. Não só porque a concorrência é intensa. Também porque, se houver inconveniência em operar sob sigilo, mas por vias aceitas pelas convenções internacionais, as vias clandestinas de governo a governo, ou de governo a antigoverno, o contrabando e a corrupção são praticados com o mesmo resultado. E em alguma parte do mundo estão acontecendo agora, como em todos os dias, em todas as horas.

(A autorização da ONU, por exemplo, foi para a vigilância aérea sobre a Líbia, mas logo os rebeldes, que viriam a ser governo para as futuras concessões de petróleo, lutaram com farto armamento francês e inglês, e até instrutores e comandos, como provou a mal noticiada morte de um general da reserva francesa.)

A corrupção é o motivo menos citado, entre os já referidos para a sustação. Mas tem citações oficiosas nos Estados Unidos. E é sugerida com menor ou maior clareza, inclusive nas queixas da derrotada Beechcraft. Não quer isso dizer que a Embraer seja o alvo da imputação ou de suspeitas.

A atividade interna dos departamentos de compras militares não se limitam a armas e equipamentos, são repletas de correntes industriais. E, nos Estados Unidos, é mesmo comum que congressistas tenham lugar nas negociações, sejam as visíveis ou as invisíveis.

Fosse, então, para afastar a "Beech" (hoje Hawker Beechcraft) ou outra, ou para incluí-la ou a outra, a sustação da encomenda não tem bom aspecto e requer cautela do governo brasileiro, para o Brasil não se tornar o maior prejudicado na embrulhada.

Se, porém, mostrar-se com mais firmeza um elo entre a dispensa dos Super Tucanos e as dificuldades do F-18 americano na compra de caças pelo Brasil -a capacidade de sedução francesa do polêmico Raphale volta a fazer efeito-, então é aproveitar a oportunidade: nem conversa mais sobre o F-18.

Afinal de contas, ninguém acredita que os americanos transfiram, de fato, tecnologias avançadas e permitam a venda, a quem o Brasil quiser, de F-18 feitos aqui. Tais promessas são conversas de vendedor -o que não quer dizer que o Raphale tenha vendedores com outras conversas.

EUA "envergonhados" com Embraer


O chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos, Norton Schwartz, considerou "vergonhosa" a suspeita de irregularidade na licitação vencida pela Embraer para fornecer 20 aviões de combate leve (Super Tucano) e que levou à suspensão definitiva do contrato na terça-feira. Ele afirmou ontem que a Força Aérea norte-americana decidiu cancelar o negócio de US$ 355 milhões vencido pela fabricante brasileira após avaliar que a documentação estava "abaixo do padrão" para a escolha do vencedor, justamente no momento em que se preparava para enfrentar processo judicial movido pela concorrente Hawker Beechcraft, dos EUA.

Analistas acreditam, contudo, que a decisão foi motivada por razões eleitorais, considerando o lobby da indústria norte-americana e as críticas dos rivais do presidente Barack Obama. Schwartz afirmou que a investigação está progredindo e que "alguém terá que pagar pelo que ocorreu", caso seja provado que a questão envolve uma tentativa de direcionar o contrato para a Sierra Nevada Corp, parceira local da Embraer. Schwartz admitiu ainda que o assunto causou "embaraço" e "profunda decepção" entre os militares norte-americanos.

A Embraer reagiu imediatamente, descartando ter havido falhas na documentação. A Força Aérea dos EUA prometeu ontem que vai agilizar a nova licitação para os aviões usados no Afeganistão para não perder os recursos já reservados no orçamento federal e que expiram no ano fiscal de 2013. Enquanto não sai uma solução não avança, a fabricante de aviões foca suas atenções para a aviação executiva no Brasil. "Esperamos capturar uma parcela importante desse mercado", disse Breno Corrêa, diretor de Vendas do segmento na América Latina, Breno Corrêa.

Amorim negocia punição de militares


Celso Amorim

A presidente Dilma Rousseff considerou uma "afronta" o manifesto divulgado na terça-feira por militares da reserva, contra a Comissão da Verdade, que tem a missão de apurar abusos cometidos na repressão à guerrilha durante a ditadura militar dos anos 60 e 70. Em conversa, pela manhã, com o ministro da Defesa, Celso Amorim, cuja autoridade é questionada pelos autores do manifesto, a presidente ordenou punição aos militares que assinam o texto. Eles deverão ser repreendidos pelos comandantes das Forças às quais pertencem.

Amorim dedicou boa parte do dia ao caso. Falou pessoalmente com dois dos comandantes das Forças, e por telefone com o terceiro, e deixou com eles a escolha da punição a ser adotada, segundo o código disciplinar de cada Força. A expectativa de Dilma e Amorim é que haja uma advertência aos signatários do documento (inicialmente 98, número que, para preocupação do governo, subiu para quase 130 durante o dia de ontem). Os códigos disciplinares do Exército, Aeronáutica e Marinha preveem advertências, repreensões, prisão e até o desligamento das Forças, pelo bem da disciplina.

Embora os signatários do manifesto sejam da reserva, eles pertencem ao quadro militar e estão sujeitos à disciplina das Forças Armadas. O texto foi publicado em um site ligado ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, um dos acusados de pertencer ao grupo de torturadores que cometeram abusos aos direitos humanos durante a ditadura. Ele nega ter sido torturador.

No documento, os militares reafirmam "em uníssono" os termos de outro manifesto, em que os clubes militares acusavam Dilma de não cumprir seus compromissos em relação às Forças Armadas, especialmente o de evitar represálias aos que atuaram na ditadura. Esse primeiro manifesto foi retirado dos sites dos clubes militares por ordem de Amorim, o que levou os signatários do novo texto a declarar que o ministro não tem "qualquer tipo de autoridade ou legitimidade" para exigir a retratação dos militares.

Dilma considerou grave a iniciativa, encabeçada por 15 generais, e ordenou a Amorim que lembrasse aos comandantes que eles participaram das negociações para criação da Comissão da Verdade. Para Dilma, que considera esse tema questão de honra no governo, os comandantes não podem permitir insubordinação contra uma decisão da chefe suprema das Forças Armadas, que resultou de negociações com os próprios militares, cujo resultado foi considerado insuficiente por grupos de defesa dos direitos humanos.