quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
URAL-63095: O novo APC russo
O novo veículo de transporte de pessoal russo, o URAL-63095 (Projeto Typhoon) conta com uma blindagem secreta que o faz suportar explosivos improvisados e minas anti-pessoal de até 8 kg. O URAL-63095 está sendo submetido a intensas provas de campo, veja no vídeo acima.
Mantendo as aparências em Pyongyang
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| Kim Jong-un |
Quando Kim Jong-un fez sua estreia como aparente herdeiro norte-coreano em setembro de 2010, ele se parecia muito com seu avô, o mais próximo que os norte-coreanos tinham de um deus, a ponto das autoridades de inteligência sul-coreanas terem notado que muitos norte-coreanos, ao verem o jovem pela primeira vez na televisão, caíram em lágrimas.
“O regime deseja que seu povo veja Kim Jong-un como o Grande Líder Kim Il-sung reencarnado”, disse Kim Kwang-in, chefe do Centro de Estratégia para a Coreia do Norte, uma organização de pesquisa com sede em Seul, que reúne informação a partir de fontes dentro da Coreia do Norte.
“Eles o engordaram e lhe deram um amplo treinamento –e também cirurgia plástica, alguns até mesmo diriam– para torná-lo igual ao seu avô.”
Independente de a demonstração de júbilo em 2010 ter sido genuína ou uma propaganda orquestrada pelo Estado, ela marcou o início do que Kim e outros analistas daqui chamam de “política de avatar” na Coreia do Norte.
Desde sua elevação à liderança após a morte de seu pai, Kim Jong-il, em dezembro, Kim Jong-un tem se apresentado como uma quase réplica de seu avô, Kim Il-sung –na forma como bate palmas, caminha com os ombros jogados para trás e exibe barriga, costeleta, queixo duplo e bochechas semelhantes.
A embalagem de Kim como personificação do ainda amplamente reverenciado presidente fundador da Coreia do Norte sugere uma máquina bem lubrificada em funcionamento para criar um novo líder.
Que tipo de líder ele será –figurativo, outro Kim Jong-il ou um Deng Xiaoping norte-coreano– permanece tema de especulação febril em Seul. Por ora, a estratégia de Kim de assumir a personalidade de seu avô e explorar a nostalgia pelo “Grande Líder” para justificar e consolidar sua sucessão dinástica reflete a magreza de seu próprio currículo, assim como a extensão das sombras de seu avô e pai, sob as quais ele deve governar.
“Quando os norte-coreanos veem Kim Jong-un, eles pensam em Kim Il-jung quando tinha 33 anos”, disse An Chan-il, um ex-oficial do exército norte-coreano.
An, 57 anos, se referia a quando Kim Il-sung, um líder guerrilheiro que lutava pela independência coreana, entrou em Pyongyang no final do domínio colonial japonês em 1945, se apresentando como um libertador sorridente. Na verdade, foram os americanos e os soviéticos que libertaram a Coreia do Japão e a dividiram entre eles.
“Após as dificuldades dos últimos anos, os norte-coreanos anseiam por outro libertador”, disse An, que desertou para a Coreia do Sul em 1979 e trabalhou como analista do governo em Seul até abrir seu próprio grupo de pesquisa, o Instituto Mundial para Estudos da Coreia do Norte, em 2010.
Kim Jong-il foi um mestre da propaganda que dirigiu vários filmes. Sua última obra pode ter sido escolher Kim Jong-un como um sucessor que herdou a política de seu pai, mas a face de seu avô. Kim Jong-il sabia que, diferente de Kim Il-sung, ele e sua aparência simples, em forma de pera, eram detestados por muitos norte-coreanos (ele já chamou a si mesmo de “um anão feio”, segundo sul-coreanos que o conheceram).
Desde a morte de Kim Jong-il, a imprensa estatal norte-coreana jurou que Kim Jong-un seguirá fielmente o lema de seu pai, a política dos “militares em primeiro lugar”. Essa abordagem dá prioridade máxima à alocação de recursos para as forças armadas, o elemento central dos esforços do pai, e agora do filho, para manter a unidade interna.
Mas os 17 anos de governo de Kim Jong-il foram marcados por inundações, secas, fome em massa e aprofundamento das sanções internacionais em resposta ao seu programa de armas nucleares. Em público, ele frequentemente parecia rígido e distante. Generais servis mantinham uma distância deferente dele. Poucos norte-coreanos comuns alguma vez o ouviram falar.
Em comparação, Kim Jong-un exibe uma postura confiante que lembra a de seu avô, que é frequentemente descrito nos livros escolares norte-coreanos e murais como um líder cercado por crianças e trabalhadores. A fisionomia jovem de Kim como novo construtor de nação surge enquanto o regime prometia ao seu povo há muito sofredor “uma nação forte e próspera”.
Sorrindo, provando sopa na cozinha da escola, dando braços aos trabalhadores, subindo em um tanque com soldados, abraçando os jovens pilotos correndo na direção de seu peito em lágrimas e aproximando generais experientes do exército para lhes dar alguns conselhos, Kim Jong-un parece em casa em seu novo papel como “eobeoi” nacional, ou “pai”, como seu avô e os antigos reis coreanos eram tratados pelos seus súditos.
Mas as coisas em Pyongyang podem não estar transcorrendo tão bem quanto parece.
Lee Han-woo, um editor do jornal sul-coreano de circulação em massa, “Chosun Ilbo”, e que escreveu livros sobre os antigos reis coreanos, disse que a Coreia do Norte compartilha semelhanças com a dinastia Yi, que governou a Coreia por cinco séculos, até o Japão anexar o país em 1910. Doze dos 27 reis da monarquia assumiram o trono quando ainda eram adolescentes e quatro na faixa dos 20 anos.
Os reis jovens dependiam de regentes ou ministros mais velhos até consolidarem sua própria autoridade ou serem vítimas de golpes palacianos. O tio de um jovem rei usurpou o trono, o meio-irmão de outro rei foi suspeito de envenená-lo para tomar o poder, e vassalos destronaram um rei tirano e colocaram em seu lugar um de seus meio-irmãos.
Essas histórias ajudam a instigar a queda dos sul-coreanos por fofocas palacianas cercando Kim Jong-un, que se acredita que tenha pouco menos de 30 anos e possui um tio influente, Jang Song-taek. Jang serve como mentor de Kim, mas suas ambições fora isso estão envoltas em mistério.
Kim também tem um meio-irmão, Kim Jong-nam, que vive em um semiexílio na China e conversa regularmente com jornalistas do Japão, o inimigo jurado da Coreia do Norte, para prever a ruína do governo de seu meio-irmão. Suas críticas ousadas a Kim Jong-un alimentaram a especulação de que a China e certos generais em Pyongyang possam estar protegendo ele como uma opção, caso as coisas deem errado na sucessão de Kim Jong-un. Oficialmente, Pequim expressou apoio a Kim Jong-un.
Cheong Seong-chang, um analista do Instituto Sejong, disse acreditar que Kim Jong-un já tinha se estabelecido solidamente como sucessor antes da morte de seu pai. Os generais que sua mãe, Ko Young-hee, ajudou a promover antes de sua morte em 2004 o apoiaram, disse Cheong. Mas outros acreditam que Kim é pouco mais que uma figura decorativa, com o verdadeiro poder pertencendo ao seu tio, Jang.
Por ora, Kim parece ser uma figura representativa de seu avô e pai mortos, dizem muitos analistas. Na dinastia híbrida stalinista-confuciana criada por seu avô e pai, ele é apresentado como tendo o direito divino de governar devido aos seus laços de sangue com Kim Il-sung. Isso também significa que ele pode colocar em risco sua própria legitimidade como líder se rejeitar as políticas de seu pai e tentar introduzir mudanças radicais. Esse mesmo temor assombra a elite, cujos interesses, enraizados em seus laços com a família Kim, também são conferidos pela hereditariedade.
“Independente de qual possa ser a agenda pessoal dos elementos-chave, Kim Jong-un e a nomenclatura de Pyongyang estão no mesmo barco, com seu destino atado pelo senso mútuo de crise”, disse Kim Kwang-in.
A coesão interna da Coreia do Norte começou a enfraquecer durante a fome dos anos 90, quando o Estado fracassou em fornecer rações e deixou que as famílias se virassem por conta própria.
O regime não perdeu tempo com o jovem Kim. Desde o funeral de seu pai, ele tem visitado uma unidade militar a cada quatro ou cinco dias, se apresentando como um comandante competente e que se importa, acentuando aquela que talvez seja sua qualificação mais importante como líder, que ele mais se parece com seu avô do que com seu pai impopular.
“Parece que o DNA saltou do avô para o neto, pulando o pai”, disse Lee Yun-keol, o biólogo norte-coreano que desertou para a Coreia do Sul em 2006 e agora lidera o Centro de Serviço de Informações Estratégicas sobre a Coreia do Norte, uma organização de pesquisa privada. “Então agora temos um novo líder que se parece com seu avô. Mas isso não muda muita coisa no Norte.”
Rivalidade entre sunitas e xiitas emperra revoltas na Síria e em Bahrein
A divisão entre seitas aumenta os temores de um conflito regional.Por que a Primavera Árabe estagnou na Síria e em Bahrein? Nos dois países a população deixou claro seu descontentamento sem que a repressão tenha conseguido silenciá-la. Mas também em ambos uma parte significativa se opõe à mudança, convencida de que os atuais governantes protegem seus interesses. Os observadores apontam as diferenças de seitas. A brecha entre sunitas e xiitas atravessa o Oriente Médio e agita de novo o Iraque. Alguns temem que se cristalize em um conflito.
A identidade religiosa ajuda a explicar a lealdade da comunidade sunita à dinastia dos Al Khalifa em Bahrein, ou das minorias sírias ao presidente Bashar el Assad. Embora os manifestantes de Bahrein insistam no caráter laico de suas reivindicações, concretizá-las significaria uma mudança que situaria a maioria xiita no poder. Pela mesma regra de três, a democracia levaria os sunitas sírios ao governo, hoje nas mãos de uma elite principalmente alauíta (um ramo xiita), com o apoio de cristãos, drusos e outros credos minoritários.
No Oriente Médio, "a afiliação sectária determina a comunidade, e as comunidades têm seus próprios interesses e competem pelo poder", indica o diretor do Centro de Pesquisa Global em Assuntos Internacionais (Gloria) de Israel, Barry Rubin. Sunitas e xiitas "têm uma visão do mundo diferente em assuntos políticos e lideranças diferentes. Assim que a afiliação religiosa não é como no Ocidente na atualidade, com a recente exceção da Irlanda", aponta.
A rivalidade entre sunitas e xiitas remonta aos primórdios do islamismo, quando surgiram duas interpretações opostas sobre a sucessão de Maomé. A Primavera Árabe as trouxe à superfície ao derrubar regimes que se baseavam no nacionalismo árabe e no laicismo. O islamismo que se anuncia como seu substituto volta a tornar central a identidade religiosa, e em consequência evidencia as brechas. Inclusive nos países onde a homogeneidade sunita facilitou o consenso surgem fissuras: por exemplo, no Egito, entre muçulmanos e cristãos.
Para Mehran Kamrava, diretor do Centro de Estudos Internacionais e Regionais da Universidade Georgetown no Catar, o peso do sectarismo depende em boa parte de como o utilizem as elites governantes. "Na Síria os alauítas e os cristãos temem que se El Assad cair ocorrerá um conflito de seitas. Como Assad manipulará esses temores influirá na percepção das tensões na Síria. De todo modo, em que medida [o primeiro-ministro Nuri] Al Maliki e seus adversários recorram aos sentimentos sectários de seus respectivos seguidores determinará essa brecha no Iraque".
O caso de Bahrein é paradigmático. "A monarquia sunita tentou, até certo ponto com êxito, transformar os sentimentos antiautoritários da população em divisões sectárias entre sunitas e xiitas, e acusar os xiitas de ser fantoches do Irã, o que não são", explica Kamrava.
As mesmas monarquias árabes que acorreram em apoio ao rei de Bahrein ameaçam levar El Assad diante do Conselho de Segurança da ONU. Eles apoiam o "status quo" ou a Primavera Árabe? É tentador deduzir que a aparente contradição é fruto da solidariedade sectária. Como a maioria dos governantes árabes, os reis e emires da península Arábica são sunitas. Mas também existem, e talvez principalmente, interesses geoestratégicos.
"Há diferentes níveis de apoio entre os países do Conselho de Cooperação do Golfo [CCG]", explica Greg Nonneman, decano da Escola de Serviço Exterior de Georgetown em Catar. "Omã e Kuwait, por exemplo, não participaram da operação militar, mas todos têm interesse na sobrevivência da monarquia de Bahrein. Também consideram que o problema de Bahrein pode ser contido", afirma, antes de acrescentar que todos eles, "incluindo a Arábia Saudita, estão ao mesmo tempo animando o regime para que faça algum compromisso".
A sombra do Irã é chave nessas percepções. Desde a vitória da revolução de 1979 que deu lugar ao primeiro governo xiita em um país muçulmano, os regimes árabes, defensores da ortodoxia sunita, recearam seu vizinho persa. Aquele fato acrescentou imediatismo político à querela histórico-religiosa. A guerra entre Irã e Iraque durante os anos 1980 refletiu esse antagonismo. A ajuda de seus vizinhos permitiu que Saddam Hussein mantivesse à distância os iranianos, mas também a maioria xiita de seu país.
Por isso a transferência de poder que a invasão americana propiciou em 2003 não foi bem recebida no mundo árabe. O temor que causou entre os governantes sunitas ficou graficamente refletido na denúncia de "um arco xiita" que fez o rei Abdallah da Jordânia. O governo de Bagdá dava aos xiitas continuidade geográfica desde Teerã até um Líbano dominado pelo Hizbollah, passando pela Síria. É significativo que a Arábia Saudita, a inimiga sunita do Irã, continue sem reabrir sua embaixada no Iraque. Para os sunitas mais radicais o avanço xiita é uma ameaça, e o tom desafiador dos dirigentes iranianos não ajuda a diluir esses medos.
A onda de atentados que sacudiu o Iraque desde a retirada das tropas americanas em 18 de dezembro passado ressuscitou o fantasma da guerra sectária que o país viveu entre 2006 e 2008. Ninguém crê que seja casual que todos ocorram em zonas de maioria xiita. Embora a reativação do terrorismo tenha diversas causas, a crise política entre o governo do xiita Al Maliki e o principal bloco apoiado pelos sunitas, Iraqia, fornece um perigoso caldo de cultivo para o descontentamento. A ponto de que o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, sunita, advertiu seu homólogo que caso se desencadeie um conflito sectário Ancara não vai permanecer calada.
Esse ressurgimento das tensões entre sunitas e xiitas faz alguns analistas temerem que as revoltas deslanchem uma guerra religiosa.
"Estamos vendo o nível mais alto de conflito em séculos", adverte Rubin. Theodore Karasik, do Instituto de Estudos Estratégicos Inegma, em Dubai, vai além. "Se a Síria cair, haverá uma guerra sunita-xiita desde o Líbano até o Iraque." Nonneman não acredita que haja uma guerra entre as duas seitas, mas admite que "um conflito armado entre o Irã e os países árabes sunitas, no contexto de uma explosão no Golfo, é possível (mas não muito provável)".
Nós não precisamos de revolução, nós precisamos de evolução,diz oponente de Putin
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| Oligarga Mikhail Prokhorov |
Spiegel Online: Sr. Prokhorov, o senhor possui ativos no valor de bilhões e agora planeja concorrer contra o primeiro-ministro Vladimir Putin na eleição presidencial em março. O que faz o senhor pensar que um empresário bem-sucedido pode ser um político bem-sucedido?
Prokhorov: Isso não é problema quando esse empresário tem habilidades sociais acompanhando suas habilidades de liderança. Quando estava no comando da empresa de mineração Norilsk Nickel, eu também administrava os jardins de infância, o fornecimento de energia e a construção de moradias. Em uma escala menor, eu já fiz o que é necessário na esfera nacional. É bom ter um presidente que já realizou algo na vida.
Spiegel Online: O senhor não acha que regras diferentes se aplicam à política e aos negócios? Os políticos precisam buscar apoio na arena pública, enquanto os empresários tomam decisões atrás de portas fechadas.
Prokhorov: Muitas decisões políticas também são tomadas longe dos olhos do público. Esse é um dos maiores problemas da Rússia. Mesmo nos países ocidentais, com suas tradições democráticas mais antigas, a participação da população nem sempre é tão boa quanto deveria ser. Um empresário pode perder seu dinheiro e então ganhá-lo de novo. A moeda na política é a confiança. Uma vez perdida a confiança da população, é difícil conquistá-la de novo.
Spiegel Online: A perda da fé da população russa em Vladimir Putin é dramática. Por que seus índices de popularidade despencaram repentinamente de 70% para 50%, segundo as pesquisas oficiais, ou mesmo 40%, segundo um levantamento interno?
Prokhorov: Seu principal erro ocorreu no dia da convenção de seu partido Rússia Unida, no final de setembro, quando (o presidente em fim de mandato, Dmitri) Medvedev e Putin anunciaram que simplesmente trocariam de lugar. Isso foi cínico demais. Isso realmente enfureceu as pessoas. A classe criativa então disse: espere aí, nós pagamos impostos, então temos direito e exigimos respeito. As pessoas não mais permanecem em silêncio quando decisões são tomadas passando por cima delas.
Spiegel Online: Foi o Kremlin que colocou o senhor na disputa, para canalizar essa insatisfação?
Prokhorov: Eu tomo minhas próprias decisões. É o que estou acostumado a fazer. Eu nunca fui o projeto de outra pessoa.
Spiegel Online: Ofende o senhor o fato de um conhecido próximo, o ex-barão do petróleo Mikhail Khodorkovsky, que está na prisão há oito anos e cuja empresa foi estatizada, ter chamado o senhor de projeto do Kremlin?
Prokhorov: Não, eu não me ofendo e geralmente sou difícil de ofender. É meu trabalho provar o oposto aos céticos, que querem pregar em mim o rótulo do Kremlin. Eu estou certo que poderia convencer Khodorkovsky se pudesse simplesmente conversar com ele. Mikhail é um administrador excelente e talentoso. Ele deve estar passando por um momento difícil agora e está sentado atrás das grades. Quando me tornar presidente, vou cuidar para que ele seja solto.
Spiegel Online: O senhor defende limitações de mandato que impeçam que uma pessoa ocupe o mesmo cargo político por mais de dois mandatos. O que então aconteceria com Vladimir Putin, que está buscando se tornar presidente pela terceira vez em março? Ele deveria dirigir a empresa de energia Gazprom e Medvedev deveria se tornar presidente do Tribunal Constitucional?
Prokhorov: Eu estou ocupado demais para perder tempo pensando nessas fantasias.
Spiegel Online: O senhor participou dos protestos em massa. Uma das soluções oferecidas foi: “Rússia sem Putin”. O quanto o senhor gosta desse slogan?
Prokhorov: Eu sou a favor de uma Rússia com Putin, mas também com o escritor Boris Akunin e com o blogueiro Alexei Navalny, que pediram pela renúncia de Putin. Se os lados diferentes não conseguirem chegar a uma conciliação, no pior caso, haverá uma guerra civil. A solução “Rússia sem Putin” não me inspira. Nós não precisamos de revolução, nós precisamos de evolução.
Spiegel Online: Então por que o senhor está concorrendo contra Putin na eleição?
Prokhorov: Precisamente porque precisamos de uma evolução, novas mentes e novas ideias. Putin merece crédito pelo que fez. Em particular, nos seus primeiros anos de governo, ele conseguiu unir uma terra dividida e simplificou o código tributário. A renda das pessoas aumentou. É exatamente essa nova classe média, esses cidadãos que ganham bem, que se recusam a abrir mão de seus direitos civis.
Spiegel Online: Em que medidas o senhor se concentraria inicialmente se fosse eleito presidente?
Prokhorov: Para mim, é importante estabelecer a concorrência nos negócios e na política. Quando você vai a uma loja em nossas grandes cidades, você pode escolher entre dezenas de refrigeradores ou bules de chá. Na política as pessoas têm poucas opções.
Spiegel Online: O que exatamente o senhor pretende mudar?
Prokhorov: Eu quero facilitar a criação de novos partidos. A barreira de 7% para representação no Parlamento deve ser reduzida para 3%. O mandato deve ser reduzido dos recém-decididos seis anos de volta para quatro. Na economia, eu quebrarei os monopólios, como o da Gazprom, por exemplo. Terceiro, eu darei máxima prioridades aos investimentos em educação, ciência e cultura. Eles são muito mais importantes do que altos gastos militares. No momento, ninguém está ameaçando nosso país.
Spiegel Online: Os russos não gostam de oligarcas. Como o senhor vê suas chances de entrar no Kremlin?
Prokhorov: Há preconceito contra empresários ricos, mas não tanto quanto antes. Acima de tudo, o país não gosta de pessoas desonestas.
Spiegel Online: Fraudadores eleitorais e funcionários públicos corruptos?
Prokhorov: Sim.
Spiegel Online: Por que o senhor acha que a reputação dos ricos melhorou?
Prokhorov: Porque eles criam muitos empregos, investem em seu país, realizam obras de caridade e ajudam as pessoas. Na campanha, eu falo para muitas pessoas comuns. Repetidas vezes as pessoas vêm até mim e dizem: eu sou comunista, mas votarei em você, porque eu sei que você não rouba. Este é o momento em que pessoas bem-sucedidas e prósperas devem assumir o poder, em vez daqueles que abusam de seus cargos para encherem seus bolsos.
Spiegel Online: Quão alto no escalão do governo se encontra a corrupção que o senhor descreve? O presidente Dmitri Medvedev e o primeiro-ministro Vladimir Putin são corruptos?
Prokhorov: Calma aí. A corrupção é uma herança da União Soviética, uma consequência de uma economia de escassez. Para comprar carne era preciso subornar o açougueiro. Aqueles que precisavam de autorização oficial tinham que dar um presente às autoridades certas e os médicos recebiam pralina e chocolate. Um sistema duplo acabou se desenvolvendo. Nós todos éramos dissidentes quando conversávamos em casa na cozinha, mas no trabalho e em público nós éramos seguidores do Partido Comunista.
Spiegel Online: Mas nós perguntamos se o sistema é corrupto de cima até embaixo?
Prokhorov: Aí também você encontra pessoas com mentalidade dupla.
Será que o Egito pode fazer a democracia funcionar?
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| Milhares de egípcios tomam a célebre praça Tahir, no Cairo, para marcar um ano da revolta que tirou do poder o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak |
Um ano após a revolução, o Egito talvez tenha um Parlamento, mas ainda está longe de ser uma verdadeira democracia. Os salafistas, ultraconservadores, têm problemas com o sistema parlamentar, enquanto os políticos seculares se preocupam que a Irmandade Muçulmana e o Conselho Militar estão fazendo acordos por trás das cenas.
Em seu primeiro dia como membro do Parlamento, Ziad el-Eleimy está na praça Tahrir, onde tudo começou. Ele veste uma jaqueta de veludo com o adesivo do Parlamento na lapela e carrega uma sacola plástica. Ele dormiu na praça por quase três semanas durante a revolução.
Agora, el-Eleimy está olhando para a praça Tahrir como se estivesse procurando alguma coisa, mas não há nada para ser encontrado. O tráfego ronca pelo asfalto, o ar está pesado de fumaça de escapamento e os sinais de trânsito não foram consertados em um ano. Um repórter japonês segura um microfone para el-Eleimy, que faz alguns comentários ao acaso sobre a liberdade –a justiça social e o fato de seu coração continuar na praça Tahrir.
Seu avô foi preso nos tempos do ex-presidente Gamal Abdel Nasser, seus pais foram presos pelo sucessor de Nasser, Anwar Sadat, e o próprio el-Eleimy passou uma temporada atrás das grades sob o hoje deposto presidente Hosni Mubarak –foi só um mês, mas o suficiente para seus captores quebrarem uma perna e um braço.
Experimento duplo
Um ano após a revolução, o Egito tem um novo Parlamento, eleito de forma mais livre e justa do que nunca. Mais de dois terços de seus membros são islâmicos, que hoje detêm tantos assentos quanto o antigo partido governante, o NDP. Há oito mulheres neste Parlamento, 13 ex-membros do NDP e apenas meia dúzia de jovens revolucionários. Juntos, têm a responsabilidade de redigir uma Constituição e no final de junho, quando o presidente for eleito, o Conselho Militar deve transferir o poder para um governo civil. Este, pelo menos, é o plano.
É um experimento duplo, e o resultado terá um impacto por todo o mundo árabe. Será que um país pode encontrar seu caminho para a democracia apenas pelas eleições, ainda mais um país islâmico? Ou será que precisa de uma segunda revolução para eliminar todas as instituições corruptas, inclusive a polícia, a televisão estatal e as agências de governo que ainda operam de acordo com as regras antigas?
Se os membros do Parlamento unirem suas forças e se, com o apoio do povo, eles exercerem pressão sobre o Conselho Militar, os generais dificilmente poderão resistir. Mas se preferirem promover seus próprios interesses e fecharem um acordo com os militares com este fim, o Parlamento pode continuar o que sempre foi: um lugar onde os representantes do povo se reúnem há 146 anos sem jamais de fato terem representado o povo.
A revolução agora está nas mãos dos deputados. El-Eleimy, social-democrata, um homem consciente de seu próprio poder e cheio de desejo de mudança. Mas há também representantes como Khaled Hanafi, 50, membro da Irmandade Muçulmana que esperou quase 20 anos por um assento no Parlamento. E há o salafista Ahmed Khalil, 33, que não tinha permissão para ensinar em sua própria escola, por causa da sua barba.
Eles não têm nada em comum, exceto o fato de terem participado das manifestações da praça Tahrir, mas ainda assim precisam definir agora coisas importantes juntos: que tipo de país querem? E o que entendem como democracia?
“Não acredite que o Parlamento pode protegê-lo”
El-Eleimy caminha da praça Tahrir para o prédio do Parlamento. Ele pisa na areia onde os manifestantes arrancaram o pavimento, passa pelo prédio Mogamma, o colosso da burocracia estatal, e o Institut d`Egypte, que está em ruínas desde dezembro. O Parlamento fica atrás dele, mas um muro de concreto e arame farpado agora bloqueia a rua. El-Eleimy tem de dar a volta.
O prédio que abriga a futura democracia do Egito fica atrás de uma grade com pontas douradas, tem rolos de arame farpado e soldados. Os canteiros de flores foram plantados recentemente, e os muros estão pintados. Não há mais evidências que o povo estava morrendo aqui há apenas um mês, e que soldados estavam atirando arquivos na multidão de um prédio no qual estão inscritas, ironicamente, as palavras “A democracia garante a soberania do povo”.
El-Eleimy também estava lá nesse dia. Ele já tinha sido eleito, mas isso não impediu a polícia militar de bater nele. “Não ache que o Parlamento pode protegê-lo de nós”, disse um dos soldados com desprezo. El-Eleimy lembra-se das palavras claramente, porque elas demonstram para ele quem ainda dá as cartas no país. Ele se reuniu com alguns dos generais do conselho militar três semanas após a derrubada de Mubarak. Eles queriam que os ativistas parassem de protestar. “Esses homens não negociam. E eles certamente não deixarão o poder voluntariamente”, disse El-Eleimy.
Depois, ele entra no Parlamento e mostra aos guardas seu crachá, pelo qual teve que esperar cinco horas no dia anterior. Não há escritórios para os deputados neste estranho Parlamento, nem há orçamento para pessoal. Há apenas uma biblioteca empoeirada, muito mármore, pinturas a óleo penduradas tortas na parede e candelabros por corredores com tetos muito altos. É uma das muitas instituições do antigo Egito que dá as pessoas uma noção de sua própria impotência.
Cursinho de democracia
Enquanto isso, os salafistas estão celebrando do lado de fora. Seu partido, Al-Nour, cujo nome significa “partido da luz”, conquistou 121 assentos, ou quase um quarto da Câmara Baixa, a Assembleia do Povo. Eles carregam Ahmed Khalil, um de seus líderes, pela multidão como um jogador de futebol que acaba de fazer um gol. Khalil se forçou a usar um terno bege para este dia. Sua barba está bem aparada e ele carrega um smartphone na mão. Ele é o modelo de parlamentar salafista, mas apenas sua aparência é moderna. Ele se recusa a falar com mulheres e suas opiniões são ultraconservadoras.
Há uma semana, participou de uma conferência em um hotel com os outros membros do Parlamento, na qual um cientista político explicou para eles como funciona a instituição. Foi um cursinho em parlamentarismo que cobriu de tudo, desde comitês até os procedimentos legislativos. A maior parte dos salafistas nada sabe de política. Até recentemente, eles tendiam a considerar as eleições uma blasfêmia.
Khalil não precisava do curso. Ele tem doutorado em administração e dirige uma escola de ensino médio em Alexandria. Como é controlado, os jornalistas têm permissão de falar com ele. Ele formulou duas respostas para perguntas sobre questões delicadas como mulheres e biquínis. A primeira é que os salafistas não oprimem as mulheres, mas as protege. Eles já prepararam uma série de leis contra o analfabetismo, a pobreza e a injustiça, diz Khalil. Isso não faz dele um feminista, porém: ele também acha que o lenço na cabeça e a segregação de gêneros foram inventados para o benefício das mulheres. Ele diz que tampouco é contra o turismo nas praias, mas que a indústria do turismo não deveria se focar exclusivamente nas praias. Os safáris de jipe e esqui em dunas de areia, salienta, são formas de recreação agradáveis.
Diante do Parlamento nesta manhã, ele diz: “A sharia e a democracia precisam ser combinadas”, referindo-se à lei islâmica. “Então será bom. É precisamente isso que está acontecendo agora”. É claro, acrescenta, quando as leis democráticas violam a sharia, a lei islâmica deve prevalecer. A campanha dos salafistas baseou-se primariamente no combate à corrupção, mas eles também sabem que não é uma luta que pode ser vencida rapidamente. O que pode ser alcançado rapidamente é uma constituição islâmica.
Extremamente religiosos
Quando a sessão parlamentar começar, as fileiras de salafistas parecerão membros de um grupo de música folk, com turbantes, barbas e vestes, conhecidas como jellabiya. É claro, todos eles têm um calo de preces na testa, causado pela pressão da cabeça no chão durante as preces diárias. É um sinal de religiosidade extrema.
A primeira tarefa do primeiro Parlamento livre é que todos seus 508 membros devem jurar pelo país, a República e a Constituição, apesar de o Egito de fato não ter uma no momento. Os deputados recitam seu juramento, um após o outro, um evento de quatro horas transmitido ao vivo para o resto do mundo.
Quando El-Eleimy se levanta, acrescenta que pretende cumprir as demandas dos revolucionários. Um salafista se recusa a jurar à República, e em vez disso jura à “doutrina de Alá”, enquanto outros acrescentam que só vão cumprir o juramento enquanto não contradisser a vontade de Deus. É apenas um juramento, uma formalidade, e ainda assim revela as primeiras cisões.
Depois, eles elegem o presidente do Parlamento, e o vencedor, como esperado, é Mohammed Saad el-Katatny, secretário geral do Partido da Liberdade e Justiça, da Irmandade Muçulmana. É a posição mais influente que um membro da Fraternidade já teve e Katatny sabe a quem agradecer. “Muitos agradecimentos ao exército esplêndido e ao conselho militar, que conseguiram celebrar as eleições”, diz ele.
Medida audaciosa
No dia seguinte, o revolucionário El-Eleimy está sentado, fumando sem parar em um sofá barroco folheado a ouro na cafeteria do Parlamento. O Conselho Militar acaba de suspender as leis de emergência que vigoravam há três décadas e soltar 2.000 prisioneiros.
El-Eleimy considera isso é um progresso, mas não é o suficiente: “A Fraternidade Muçulmana e o Conselho Militar fizeram um acordo”, diz ele. “Nas eleições presidenciais, a Fraternidade Muçulmana vai apoiar o candidato militar. Isso vai permitir que governem sem a responsabilidade oficial. É a melhor coisa que poderia acontecer para eles”.
Ele acaba de entrar com uma moção para que o ministro do interior, o ministro da justiça e o ministro da defesa sejam questionados no Parlamento. “E o chefe do conselho militar!”, acrescenta. É uma medida audaciosa, mas ele espera estimular outros delegados a romperem o pacto entre os militares e os islâmicos.
Abafar outras vozes
A praça Tahrir está cheia de pessoas na quarta-feira do dia 25 de janeiro, aniversário da revolução. Há mais pessoas do que no dia da derrubada de Mubarak. A Fraternidade Muçulmana montou o maior palco, diretamente do outro lado do movimento revolucionário jovem.
Eles instalaram dezenas de alto-falantes e agora estão tocando canções patrióticas tão alto que abafam todo o resto. Sua mensagem é: celebrem a revolução e deixem a política para nós.
Khaled Hanafi, 50, é oftalmologista com uma barba suja. Ele não parece o estereótipo de islamista sinistro. Durante a revolução, Hanafi cuidou dos feridos em um hospital de campo na Praça Tarhir e acaba de ser eleito para o Parlamento com 150.000 votos. Ele tentou concorrer ao Parlamento antes, em 1995, e depois passou um ano preso. Ele foi torturado no início, mas o período depois disso foi o melhor de sua vida. “Nunca aprendi tanto. Éramos todos professores e engenheiros”.
Hanafi pregou fotos do hospital de campo na frente do palco. Nelas, ele aparece colocando bandagens nos feridos e dormindo no chão. Tudo gira em torno da credibilidade revolucionária, e Hanafi tem muita. Muitos acreditam nele quando sobe ao palco e diz que a revolução acabou e que o conselho militar sem dúvida se retirará da política no dia 30 de junho.
Existe um pacto entre o conselho militar e a Fraternidade Muçulmana como muitos alegam? Seu rosto amigável fica franzido. Puxando seu cachecol cor de rosa, ele diz: não, absolutamente não! Ele diz que isso não passa de um rumor iniciado pelos que querem criar um caos.
“Não queremos um Estado islâmico!”
A Fraternidade Muçulmana não gosta dos protestos, porque cada vez mais se voltam contra ela. Para a Fraternidade, a revolução está no passado, enquanto os manifestantes acreditam que está no futuro. Na quarta-feira, dia 25 de janeiro, centenas de milhares marcharam para a praça Tahrir de todas as direções, como fizeram há um ano. Dezenas de milhares protestaram na sexta-feira, que eles declaram como “Dia da Revolta”. E agora os manifestantes não estão apenas gritando: “Fora Conselho Militar”, mas também: “Não queremos um Estado islâmico!”
Há tendas na praça Tahrir novamente na noite de quarta-feira. Muitos manifestantes ficaram, inclusive El-Eleimy. Ele quer dormir na praça e ir direto ao Parlamento toda manhã. Afinal, não é tão longe.
França consegue vender caças à Índia, e negócio no Brasil pode avançar
Rafale não tinha vencido nenhuma disputa externa, o que diminuía as suas chances
O governo da Índia selecionou o avião de caça francês Dassault Rafale numa concorrência gigante visando o fornecimento de 126 aparelhos para sua Força Aérea.
A escolha é um grande trunfo para a França na disputa que corre no Brasil -aqui, a FAB (Força Aérea Brasileira) tenta há dez anos comprar 36 novos caças. O processo está paralisado desde o ano passado.
A vitória na Índia, que ainda não é final por depender de negociações contratuais como o próprio governo francês afirmou, garante à Dassault algo que sempre foi apontado como um obstáculo em sua tentativa de venda ao Brasil: a falta de escala na produção do Rafale.
Isso porque o modelo só é operado pela França, que com 272 encomendas já considerava encerrar a produção do avião. Tendo fracassado em todas as concorrências externas, a Dassault apostava tudo no negócio indiano.
A compra asiática é a maior do mundo em quantidade. É estimada em US$ 11 bilhões (R$ 19,2 bilhões). A disputa brasileira está avaliada entre R$ 10 bilhões e R$ 14 bilhões.
Na Índia, cada Rafale com pacote de armas e transferência tecnológica poderá sair por cerca de US$ 90 milhões, menos da metade do valor apresentado nas negociações brasileiras até aqui.
Mas é preciso levar em conta que a quantidade maior de aviões barateia custos. Lá, o Rafale derrotou o Eurofighter Typhoon, produzido pelo consórcio europeu EADS.
No Brasil, o francês disputa com Boeing F-18 (EUA) e Saab Gripen (Suécia). No último ano, o Rafale havia acumulado reveses como a derrota na venda à Suíça e a suspensão da negociação com os Emirado Árabes Unidos.
Já o F-18 viu suas chances crescerem por conta da pressão diplomática americana e pelo fato de a Força Aérea dos EUA ter selecionado o brasileiro Super Tucano numa disputa ainda em suspenso.
O governo da Índia selecionou o avião de caça francês Dassault Rafale numa concorrência gigante visando o fornecimento de 126 aparelhos para sua Força Aérea.
A escolha é um grande trunfo para a França na disputa que corre no Brasil -aqui, a FAB (Força Aérea Brasileira) tenta há dez anos comprar 36 novos caças. O processo está paralisado desde o ano passado.
A vitória na Índia, que ainda não é final por depender de negociações contratuais como o próprio governo francês afirmou, garante à Dassault algo que sempre foi apontado como um obstáculo em sua tentativa de venda ao Brasil: a falta de escala na produção do Rafale.
Isso porque o modelo só é operado pela França, que com 272 encomendas já considerava encerrar a produção do avião. Tendo fracassado em todas as concorrências externas, a Dassault apostava tudo no negócio indiano.
A compra asiática é a maior do mundo em quantidade. É estimada em US$ 11 bilhões (R$ 19,2 bilhões). A disputa brasileira está avaliada entre R$ 10 bilhões e R$ 14 bilhões.
Na Índia, cada Rafale com pacote de armas e transferência tecnológica poderá sair por cerca de US$ 90 milhões, menos da metade do valor apresentado nas negociações brasileiras até aqui.
Mas é preciso levar em conta que a quantidade maior de aviões barateia custos. Lá, o Rafale derrotou o Eurofighter Typhoon, produzido pelo consórcio europeu EADS.
No Brasil, o francês disputa com Boeing F-18 (EUA) e Saab Gripen (Suécia). No último ano, o Rafale havia acumulado reveses como a derrota na venda à Suíça e a suspensão da negociação com os Emirado Árabes Unidos.
Já o F-18 viu suas chances crescerem por conta da pressão diplomática americana e pelo fato de a Força Aérea dos EUA ter selecionado o brasileiro Super Tucano numa disputa ainda em suspenso.
Envio de navio de guerra às Malvinas revolta Argentina
Decisão da Grã-Bretanha de levar destróier a arquipélago em litígio busca 'militarizar o conflito', acusa chancelaria argentina
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| HMS Dauntless |
A dois meses do aniversário de 30 anos da Guerra das Malvinas, o governo britânico emitiu ontem um novo sinal de endurecimento na disputa com a Argentina pela soberania sobre o arquipélago. O Ministério de Defesa de Londres informou que enviará às ilhas do Atlântico Sul um de seus navios de guerra mais modernos, o destróier HMS Dauntless. Em nota, o governo argentino acusou a Grã-Bretanha de "militarizar o conflito".
"A República Argentina rejeita a tentativa britânica de militarizar um conflito sobre o qual as Nações Unidas já decidiram, em diversas oportunidades, e indicaram que ambas as nações devem resolver a questão em negociações bilaterais", protestou o Ministério das Relações Exteriores de Buenos Aires em nota oficial. A mensagem diz que as ações britânicas têm o "objetivo de distrair a atenção pública das políticas econômicas de ajustes num contexto interno de crise estrutural e alto desemprego".
O governo de Cristina Kirchner também criticou a chegada do príncipe William ao arquipélago, onde o herdeiro do trono deverá passar por treinamento militar. Ele é copiloto de helicóptero do Exército britânico. "O povo argentino lamenta que o herdeiro real desembarque no solo pátrio com o uniforme do conquistador e não com a sabedoria de estadista que trabalha a serviço da paz e do diálogo entre as nações."
O navio da Marinha britânica vai substituir a fragata HMS Montrose, que patrulha as águas das Falklands - como os britânicos chamam as Malvinas. De acordo com o porta-voz da Marinha Real, Simon Smith, a troca já estava programada. "A Marinha tem mantido uma presença contínua no Atlântico Sul por vários anos e o envio do HMS Dauntless foi planejado tempos atrás", disse Smith à BBC. Segundo o porta-voz, trata-se de um "movimento de rotina".
A decisão de reforçar o poder naval no arquipélago disputado ocorre num momento especialmente delicado. Em dezembro, os países-membros do Mercosul concordaram em proibir que embarcações com a bandeira das Malvinas atraquem em portos sul-americanos. O Brasil promete levar a sério a medida.
"O governo britânico outorga uma grande importância ao aniversário dos 30 anos da guerra com a Argentina, no dia 2 de abril, e o envio do destróier é parte da decisão do Conselho de Defesa de fortalecer a defesa das ilhas", disse ao Estado o analista Jorge Castro, diretor do Instituto de Planejamento Estratégico de Buenos Aires.
"O Conselho de Defesa britânico já descartou a possibilidade de uma ação militar da Argentina, não só por falta de capacidade e logística, mas também porque não há intenção do governo argentino de partir para a guerra. O que estão dizendo com esse gesto é que o conflito está instalado", analisou Castro. Ele ponderou que o apoio do Mercosul à Argentina mudou o cenário de modo favorável aos argentinos, que tentam retomar o diálogo direto com o governo britânico sobre a posse do território.
A Grã-Bretanha rejeita negociar a soberania do arquipélago e afirma ser favorável à autodeterminação da população local, os kelpers - colonos britânicos trazidos no século 19.
Castro afirma que o apoio brasileiro é central para a Argentina. "A relação com o Brasil é uma prioridade do governo britânico e a mudança de posição brasileira sobre o acesso aos portos mostra que a Argentina tem aliados importantes", destacou.
No dia 18, em visita ao Brasil, o chanceler britânico, William Hague, reiterou a seu colega brasileiro, Antonio Patriota, que a posição britânica em relação à ilha não vai mudar.
A guerra entre Argentina e Grã-Bretanha pela posse das Malvinas teve início em 2 de abril de 1982 e terminou em 14 de junho do mesmo ano, com o saldo de 255 militares britânicos e mais de 650 argentinos mortos.
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